A mulher do médico de Saramago e a democracia

Maurício Rands

Publicação: 07/08/2017 03:00

Cena 1. Greve da polícia militar em Pernambuco em 2014. Diante da ausência do policiamento, populares julgam-se no direito de entrar nas lojas do comércio de Abreu e Lima e levar tudo que lá encontram e podem carregar. Como se o dever de ser honesto estivesse suspenso pela falta de policiamento. Como  prenunciara Saramago, em seu 'Ensaio sobre a Cegueira', ao relatar as barbaridades cometidas por pessoas comuns numa situação em que todos perderam a visão. Não sendo vistos, os personagens imaginavam-se legitimados às maiores baixezas.

Cena 2. No Brasil da Lava Jato, os eleitores corretamente se indignam contra os envolvidos nos episódios de corrupção que estão sendo pioneiramente investigados e punidos. Todavia, parecem esquecer que os políticos contra os quais se insurgem não foram eleitos pelos escandinavos. Parecem não ver que foram eles próprios que os escolheram, muitas vezes ao preço de favores e mesmo de alguns trocados recebidos no dia da votação. Muitos eleitores no Brasil comportam-se como os moradores de Abreu e Lima ou os personagens de Saramago. Como no isolamento da cabine eleitoral não são vistos quando escolhem maus políticos, esses eleitores pensam estar legitimados a vender ou banalizar o voto.    

Cena 3.  Em 1979, o cientista político Carlos Nélson Coutinho escreveu 'A Democracia como Valor Universal'. Criticando o descaso com a democracia na tradição do socialismo real, salientou a importância do compromisso democrático como inegociável para uma refundação da esquerda. Reflexões como essas influenciaram o partido fundado em 1980 a partir das experiências do novo sindicalismo, das comunidades eclesiais de base e dos grupamentos de esquerda que tinham combatido o regime militar. Naquele momento, criava-se um partido que tentava superar o descompromisso com a democracia dos então defensores do socialismo real.  38 anos depois, sua presidente, a senadora Gleisi Hoffmann, defende o regime de Maduro. Que se tornou uma ditadura que prende opositores nas madrugadas, mata manifestantes nas ruas e ataca o Parlamento eleito. Como estava em uma reunião longe daqui, em Manágua, talvez imaginasse que não seria vista. Como os personagens de Saramago, vistos apenas pela mulher do médico. Talvez mais do que imaginar não estar sendo vista, a senadora não está é conseguindo enxergar o que está acontecendo. Não consegue ver que pode haver algo em comum entre três fenômenos históricos. De um lado, a primeira experiência de poder da esquerda em um grande país - a URSS - que acabou em tragédia: totalitarismo e miséria econômica. De outro, o Governo Dilma, do qual ela foi ministra, que acabou gerando 12 milhões de desempregados e o envolvimento de muitos de seus líderes na corrupção da política convencional. E, finalmente, a degeneração do regime venezuelano para uma ditadura escancarada. A senadora não consegue ver o denominador comum entre os três fracassos: a incompreensão de que a democracia é um valor universal e a crença de que a 'luta política' tudo justifica quando parecerem justos os fins colimados. Algo revelado pelos fatos que já pertencem à história, mas também pelos atos e palavras dos protagonistas das três efemérides. Algo que pode estar sendo visto por mais pessoas que não apenas a mulher do médico.

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