EDITORIAL » Avaliar é preciso

Publicação: 07/08/2017 03:00

Avaliação, para certos setores, soa como ameaça. E, como defesa, tratam a ação como tabu no qual não se deve tocar. Reações surgem por todos os lados. Assim foi na década de 90 quando se introduziu o exame dos cursos. Sindicatos, alunos, professores, donos de escolas criticaram a iniciativa. Hoje, graças à medida até então inédita, a sociedade tem o retrato de corpo inteiro das instituições de ensino privadas e públicas. Com base nele, podem-se traçar políticas aptas a corrigir rumos.

Outra caixa-preta que exige transparência é o serviço público. É inacreditável que, no século 21, o país não trate o setor com o profissionalismo imposto pela complexidade do Estado moderno. Passo importante foi dado pela Constituição de 1988. A Carta Magna exigiu concurso aberto para ingresso nos quadros do serviço público. Assim, para figurar na folha de pagamento, a pessoa se submete a rigoroso processo seletivo a fim de demonstrar capacidade de desempenhar a função.

A democratização do ingresso foi iniciativa importante mas não suficiente. Ficou para trás o acompanhamento da carreira do profissional. Ao assumir o cargo, o servidor garante a estabilidade depois de três anos de estágio probatório. Estabilidade ganha, aí, a conotação de eternidade. Embora prevista, a exoneração é caminho de tão difícil percurso que raramente alguém se aventura a percorrê-lo. E, ao fazê-lo, não vê luz no fim da via.

Projeto de lei da senadora sergipana Maria do Carmo (DEM) põe o dedo na ferida de inércias, descomprometimentos, acomodações de interesses políticos e eleitorais. Apresentada em abril deste ano, a proposta obriga a realização de avaliação de desempenho. Advogado, professor, médico, fiscal, gestor têm de prestar contas à sociedade — que lhe paga o salário sem obter a contrapartida obrigatória.

A fatura vai além do comparecimento ao trabalho. Passa, necessariamente, pela comprovação da produtividade e satisfação dos que batem à porta da administração pública em busca de serviço. Aliás, instituir sistema simples de dar nota ao atendimento prestado contribuirá para alargar o campo dos avaliadores. O mecanismo é comum na iniciativa privada, sem que signifique agressão ou desrespeito ao trabalhador. Ao contrário. Serve para manter o certo e corrigir o falho.

Paralelamente, impõe-se investir na carreira do servidor. Treinamentos, presenciais ou a distância, devem constituir rotina e itens observados na avaliação e posterior promoção. Avaliar é preciso. Devidamente acompanhado, assistido e cobrado, o servidor poderá dar o melhor de si e fazer o que o contribuinte — que lhe paga o salário — espera que faça. Ou concluir que a vocação lhe aponta outros rumos.

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