O homem cordial do século 21

Sérgio Montenegro
Jornalista, editor do Blog do Diario

Publicação: 05/08/2017 03:00

O silêncio ensurdecedor nas ruas do país – sobretudo na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional – durante a votação da denúncia contra o presidente Michel Temer (PMDB) na Câmara dos Deputados, na quarta-feira (2), diz muito sobre o sentimento da sociedade diante da atual política. E dos políticos. Depois dos barulhentos panelaços contra Dilma Rousseff (PT), dos grandes atos pró e contra o seu impeachment e, mais recentemente, das manifestações contra a reforma trabalhista, o povo aparentemente cansou, se entregou. Ou melhor, conformou-se.

As articulações que antecederam a votação da denúncia, e o resultado da própria votação, escancararam o que muita gente já sabia. Políticos eleitos nas urnas para representar o povo representam exclusivamente a si mesmos e aos seus interesses, certos de que, em 2018, terão seus mandatos renovados.

Essa é uma certeza mais nefasta que a da impunidade dos corruptos, porque estes ainda estão – acreditemos ou não – sujeitos aos braços da Justiça, enquanto aqueles dependem apenas de garantir votos para sobreviver e permanecer impunes. E com base no histórico das últimas eleições, quando vários políticos ficha suja, acusados ou suspeitos de cometer ilegalidades, terminaram renovando seus mandatos, a certeza da manutenção do poder fica mais e mais concreta.

Parece continuar valendo para eles a velha máxima de que o povo tem memória curta. Ou a quase centenária definição do “homem cordial”, desenvolvida pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em meados da década de 30 do século passado, quando analisava a relação nociva entre governantes e governados. Buarque defendia que, no Brasil, a política se baseava na mesma estrutura das famílias patriarcais, onde os conceitos de público e privado se confundiam e os vínculos afetivos e biológicos se colocavam acima de interesses e ideias, sem jamais ser dado ao populacho o direito de contestá-los.

Isso ajuda a explicar porque, ao longo de quase três décadas, ainda não se fez uma reforma política de fato, tão cobrada pelos eleitores. Depois de várias supostas tentativas, os parlamentares responsáveis por efetuar as esperadas mudanças ainda preferem, em nome da própria sobrevivência, manter o atual sistema, vencido e podre.

Mas o que merece um alerta vermelho é a desmobilização demonstrada no caso da denúncia contra Michel Temer, que faz valer mais uma vez a tese de que, sem lideranças representativas e confiáveis, não há iniciativa popular. Em junho de 2013, até houve um ensaio de movimento apartidário, encampado inicialmente por estudantes contrários ao aumento das passagens de ônibus, que terminou ganhando volume, lastreado pela insatisfação coletiva diante de outros problemas insanáveis no cotidiano, como saúde, educação, emprego.

Dentro desse movimento de 2013 estavam, novamente, as cobranças por ética na política, e por uma reforma política que mudasse radicalmente o quadro dramático. Ali, foi concedida nova oportunidade aos congressistas de promover as mudanças, e mais uma vez a voz das ruas soou no vazio. Talvez o fracasso dessa enésima tentativa tenha servido para desmotivar de vez a sociedade, imersa num acúmulo de frustrações.

O fato é que, na manhã da quarta-feira, dia da votação da denúncia que poderia afastar mais um presidente da República envolvido em denúncias de corrupção – seria o terceiro na história do país – havia um único e melancólico manifestante na Esplanada. Era André Rhouglas, desempregado de 56 anos, que viajou de Ponte Nova (MG) a Brasília e se amarrou por 18 horas a uma cruz, em um protesto solitário contra a corrupção. "Acho um absurdo estar sozinho. O brasileiro reclama e pouco faz. Eu estou fazendo minha parte", resumiu o “empresário falido”, como ele próprio se descreveu aos repórteres. À tarde, André recebeu a companhia de cerca de 200 manifestantes, número muitíssimo inferior ao de atos anteriores. Na Avenida Paulista, em São Paulo, local emblemático, a tímida mobilização reuniu menos de 600 pessoas.

Mas foi à noite, na Câmara dos Deputados, que ficou clara a gravidade da situação. O balcão de negócios instalado há semanas no Palácio do Planalto para salvar Michel Temer foi descaradamente transferido para dentro do plenário, onde aliados do presidente cabalavam os últimos votos para livrá-lo da investigação. Valeu, mais uma vez, o vaticínio do velho “mago” do Parlamento, Ulysses Guimarães: a cada legislatura que se sucede, o Congresso Nacional só piora. Como piora a desilusão e o consequente imobilismo da sociedade.

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