Temer fica

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 04/08/2017 03:00

Na matemática, a ordem dos fatores não altera o produto. Segundo Pessoa (Bernardo Soares, no Desassossego), trata-se de ciência que vive na clausura de suas próprias regras e leis. Já na língua, mais viva, altera. Em palavras de Mistral (“Les iles d’or”), ela é um mistério e um velho tesouro. Temer Fica não é a mesma coisa que Fica, Temer. Numa situação, a gente aceita. Contrariado. Por não ter outro jeito. No outro, a gente quer. Pede, quase. Não é o caso. Ficou, como se viu nessa quarta. Aproveito para dar opinião sobre os atores, em mais um episódio triste da nossa história.

TEMER. Disse as palavras erradas. Deveria ter pedido, a Rocha Loures, que indicasse quem seria o proprietário daqueles 500 mil. Porque, fora disso, todos continuarão acreditando que o dinheiro era mesmo dele. Menos os 7% da comissão, 35 mil, para o intermediário. Ao dizer que confiava na lealdade do amigo, pediu foi que silenciasse. Adeus Temer. Pode até escapar, na votação. Mas, moralmente, já foi julgado por todos nós.

JANOT. Sabe que a jurisprudência do Supremo é pacífica no sentido de só aceitar gravações, como prova de acusação, quando autorizadas por juiz. Essa regra, vigente para telefones, vale também para gravadores (art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil). Deveria ter recomendado, à Friboi, que requeresse dita autorização. Não fez. Por que? Difícil saber. Para piorar, ainda liberou a fita, para a Globo, sem sequer ter providenciado sua perícia. E apresentou denúncia equivocada. Ao Supremo, quando deveria ter sido à Câmara (art. 86 da Constituição). A menos que tenha sido de propósito. Para tumultuar o processo. O que é ainda pior. Fica a sensação de que usa seu cargo para uma briga de rua. Pensando em passar à história, talvez. Não passará.

VOTOS CONTRA A DENÚNCIA. Boa parte votou em troca de benesses. O fim. Boa parte como defesa, porque poderão também ser vítimas de denúncias semelhantes. O fim, também. Mas boa parte votou apenas por entender que o país não suportaria trocar novamente de presidente. Em favor da estabilidade, pois. O que é até compreensível. Seria bom separar esses grupos, antes de criticar.

VOTOS EM DEFESA DA DEMOCRACIA. Assim justificam seus votos, alguns deputados, pela aceitação da denúncia. Poucos são sinceros. O PT, por exemplo, apoia Maduro. E não pode usar esse discurso falso, de defesa da democracia no Brasil, enquanto apoia ditaduras como a da Venezuela.

VOTOS EM DEFESA DA ÉTICA. Outra justificativa. Insincera, para muitos. É preciso tirar, desse grupo, os que defendem Lula presidente. No discurso, defesa da ética. Na prática, apoio a um condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. E réu, também, em mais 5 ações. Assim não dá.

FALSO VIDENTE. Este pobre coitado que vos fala. Em 22 de abril passado, escrevi: Quem será o semi-Deus que voltará dos céus, flamejante, para redimir os trabalhadores do Brasil? Lula, claro. Ele viajará de ônibus, por nossos interiores, numa espécie de “Caravana Rolidei”. Prometendo o céu na terra. Que os bons dias (de antes) vão voltar. Semeando esperanças (duvidosas). E agora ele anuncia que, a partir do dia 17, vai sair em caravana de ônibus. Por 28 cidades do Nordeste. Não há méritos, na previsão. Estava na cara.

NÓS, POVO. Continuaremos a fazer nosso papel de sempre. De inocentes. De trouxas. De quem (quase) perdeu todas as esperanças.

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