EDITORIAL » Segue a crise: vem aí a 'delação monstruosa'

Publicação: 03/08/2017 03:00

Depois de tudo que temos visto nos últimos anos no país, ainda existe alguma coisa capaz de nos espantar? A julgar pelo que disse ontem o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, existe. É a delação premiada do ex-governador do Mato Grosso Silval Barbosa (PMDB). Segundo o ministro, a delação do ex-governador é “monstruosa”. Mesmo diante da revelação de fatos escabrosos ao longo das investigações dos últimos anos, a palavra “monstruosa” dita por um ministro do STF só pode causar surpresa — o que vem por aí?

A Luiz Fux caberá homologar ou não a delação, mas é pouco provável que ela seja rejeitada, diante do espanto que causou. “Depois da Lava-Jato, é a maior operação”, disse ele. O ex-governador foi preso em setembro de 2015, numa operação policial batizada de “Sodoma”. Ele é acusado de exigir propinas de empresas em trocas de incentivos fiscais, durante o seu mandato (2010-2014). Silval cumpria pena em regime fechado no Centro de Custódia de Cuiabá (CCC). Em junho passado, a juíza Selma Santos Arruda, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, determinou a transferência dele para prisão domiciliar.

Ele ficava com 70% do valor das propinas, segundo depoimento dado em 2016 pelo secretário de Administração, César Zilio. Conforme as acusações, do esquema participavam o então governador, os secretários de Administração, Fazenda e Civil; o chefe de gabinete, o procurador estadual e o secretário-adjunto de Administração. A serem verdadeiras as acusações, uma quadrilha tomara o poder no estado.

O fato, por si só, é espantoso. Mas já vimos tantas coisas nos últimos anos que se fosse algo geograficamente localizado,  certamente não conseguiria merecer a classificação de “monstruoso”. Para merecer esta definição, é plausível supor que a delação do ex-governador terá de trazer informações que ultrapassem as divisas do Mato Grosso, e cuja ramificação geográfica e hierárquica seja mais ampla. Em março passado o colunista Lauro Jardim, de O Globo, informou que o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, é um dos alvos da delação de Silval (que foi sucessor de Maggi no governo do Mato Grosso). O ex-governador teria entregue ao Ministério Público documentos, e-mails, troca de mensagens, vídeos e áudios capazes de comprovar os fatos por ele relatados, envolvendo também figuras nacionais da política.

Enfim, aguardemos até que o seu conteúdo seja revelado. Mas uma delação “monstruosa” a essa altura dos acontecimentos, capaz de levar a uma operação semelhante à Lava-Jato, é sinal de que a sangria das denúncias e revelações indesejadas ainda não foi estancada.

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