Fabricar anticorpos

Luzilá Gonçalves
Doutora em letras pela Universidade de Paris VII e Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 02/08/2017 03:00

Sábado de manhã, chuva, chuva, a chuva que caíra a noite inteira. continua, fininha, persistente. E para nós outros que não moramos à margem de uma barreira, de um rio: vontade de permanecer no quentinho da cama. Ou percorrer o jornal, pesado de más noticias. Só pra se dizer que mais um dia de vida nos é dado. Enfim. No pequeno auditório do Sesc Santa Rita, às oito da manhã (como esse povo trabalha!), umas vinte pessoas interessadas em literatura, professores da rede, vários estudantes, dois poetas, um candidato a escritor (“eu chego lá professora”).

Atentos, participantes, todos amantes dos livros, ouvindo, discutindo a beleza de ler e de escrever, de compartilhar experiências, entre eles e com a palestrante. Não se fala de política, ninguém lembra a miséria nacional, por um momento se esquecem as taxas de desemprego, a pouca vergonha da maioria dos chamados nossos dirigentes (quosque tandem abutere...?), que, de fato só pensando em salvar a própria pele, fingem se interessar pelo destino da pátria tão despatriada como dizia Mário de Andrade.

Alguém quis saber: por que literatura, por que publicar livros? Pois com a internet toda gente pode escrever, se tornar escritor, uma glória ser blogueiro (eita palavrinha feia) e atingir milhares de pessoas no mundo inteiro. Mas se lembrou Einstein que há meio século desconfiava que estávamos produzindo uma geração de imbecis. Lembrou-se aquele professor da USP que falava do mau uso dos modernos meios de comunicação: uma chusma de ignorantes promovidos a escritor e se acreditando tal. Mas lembrou-se a urgência de viver, na voz de um poeta: “Somos seres efêmeros. Cada um de nós é uma só vez, uma única vez e nunca mais”.

E porque somos únicos, podemos entregar e repartir com os outros, uma certa visão de mundo,  um jeito particular de ser, de ver, de sentir, de falar, de modo que as palavras cheguem a exigir de quem escreve, paixão, vontade, concentração. De modo que as palavras sejam a expressão de uma subjetividade, com uma dupla carga: emocional, intelectual, que parte de quem fala, de quem escreve e atinge, questiona, comove o leitor. Uma grave missão. Pois como afirmou Italo Calvino, só a literatura é capaz de produzir os anticorpos que nos livrem de utilizar a linguagem de modo leviano. Para disfarçar, enganar talvez. Como parece estar acontecendo de modo incontrolável, pelos pagos de nossa pátria amada, idolatrada, salve, salve.

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