Transposição das águas do Rio São Francisco

José Carneiro
Juiz e professor

Publicação: 01/08/2017 03:00

Depois de um período sem sol e sem vento, em tratamento de doença, volto às páginas do Diario de Pernambuco. Mantenho, de longe, mais de trinta anos consecutivos, uma relação cultural com o velho e tradicional jornal. Desta vez venho falar da transposição das águas do Rio São Francisco.

A transposição das águas do rio da integração nacional, por adutoras, é uma dádiva dos céus. Se não houvesse milagre, acho que a obra não teria acontecido. Ela veio para transformar os sertões pernambucanos, especialmente a região do Moxotó. O projeto teve grande repercussão e foi amplamente discutido, com opiniões prós e contra, com defensores fervorosos e acusadores ferrenhos. Eu, como muitos outros, não fui contra e muito menos a favor, embora achasse melhor se tivesse sido por tubulação em vez de por canal. Seria mais prático, mais seguro e menos dispendioso. Não havia alternativa. Além disso, sou daqueles que preferem que as coisas sejam feitas com recursos próprios a outros meios que, mais das vezes, redundam em prejuízo. É salutar servir-se do que se tem.

Adutora é um canal que transporta água para um reservatório. A adutora do Moxotó fornecerá água para cerca de trezentas e vinte e cinco mil pessoas em sete municípios, valendo salientar que Custódia foi contemplada com duas delas.

A seca permanente nos sertões de Pernambuco é uma triste realidade, causando sofrimento e afetando os meios de produção. Mas o sertanejo, que é antes de tudo um forte, no dizer de Euclides da Cunha, a duras penas vem resistindo bravamente a essa calamidade, com perseverança e altivez. Agora, um novo tempo se aproxima, trazendo bonança e prosperidade. Isto muito conforta e entusiasma. O abastecimento de água de Custódia pela adutora de Rio da Barra, município de Sertânia, está previsto para dezembro vindouro, acrescentando um extraordinário capítulo na sua história.

A região do Moxotó conta com dois grandes açudes, o da Marrecas, chamado Dnocs, no município de Custódia, e o de Poço da Cruz, no município de Ibimirim, que já tiveram os seus dias de glória, com um bom sistema de irrigação e uma boa colheita de produtos agrícolas, hoje quase desativados pela ausência de chuvas, que vem acontecendo no correr dos anos. Esta situação deve ser revertida. A água é vida. Tudo, ou quase tudo neste mundo, depende dela. Sem ela nada sobrevive. A água cria formas, belezas e prosperidade. Todavia, como já disse, nem só de água nas torneiras vive o homem. E a terra, as plantas, os animais? Urge que se cuide dos rios e dos açudes, tornando-os perenes, para proveito da terra e conforto da gente. Sou ligado aos rios e aos açudes, pelo que eles são de beleza e utilidade.

Não posso deixar de falar da necessidade de repovoar a região com agrovilas, reparando o mal causado pela criação de núcleos habitacionais urbanos.

Para mim, os problemas devem ser solucionados em casa, no caso, entre outras providências, lembro a criação de açudes, cisternas, barreiros e poços artesianos.  Dou como exemplo Inajá, cidade do Moxotó, onde se planta e colhe em abundância, entre outros mantimentos, mamão, manga, melancia, jerimum, milho, melão, o ano todo, beneficiando muitas famílias, graça a um manancial, poços artesianos e outros mecanismos técnicos e práticos dos quais se servem.

Até aqui tudo bem. Mas, não se sabe o que nos reserva o amanhã. A incerteza é cruel, dói e aflige. Não se sabe até quando o Rio São Francisco vai suportar as agressões que vem sofrendo no decorrer dos anos. Tenho pena do Velho Chico. Além disso, o problema maior da transposição reside na sua manutenção satisfatória e permanente. A continuidade de uma obra dessa dimensão exige apuro e desperta incertezas e inquietações.

Em face da crise moral e econômica por que passa o país, sem precedente na sua história, não se pode mais confiar em nada, inclusive da boa execução dos serviços da transposição, capaz de assegurar um futuro promissor. Isto muito preocupa.

Convoco o povo em geral e os políticos em particular para uma tomada de posição.

Os serviços de abastecimento e operação do sistema pela adutora de Rio da Barra à cidade de Custódia serão executados pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa).

Aqui ficam minhas palmas e o meu grito de advertência.

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