EDITORIAL » A Venezuela é agora só interrogações

Publicação: 01/08/2017 03:00

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, como nunca jogando pesado para se manter no poder, pode até acreditar que no último domingo, com a eleição dos membros para a nova Assembleia Nacional Constituinte, acabou com o Parlamento de maioria oposicionista, eleito há menos de dois anos, amordaçou de vez a democracia e assim vai conseguir sobrevida suficiente para reinventar o chavismo, hoje minoria política. Ocorre, no entanto, que governar uma nação fraturada, dividida e sem apoios importantes dentro e fora do continente, só se detivesse o segredo de uma fórmula milagrosa. Por enquanto, é dono apenas de tremenda dor de cabeça fortalecida com a ameaça dos Estados Unidos e da União Europeia de reagir de maneira drástica, caso insistisse em levar a cabo o projeto classificado por muitos países como ilegítimo, ilegal e claramente nocivo aos interesses da população.

Agora que Maduro ostensivamente preferiu o perigo do isolamento completo às propostas de diálogo, o futuro da Venezuela tornou-se uma incógnita. Vítima da política econômica que o afundou na ruína – estudo de três universidades mostrou, em fevereiro de 2016, 82% dos habitantes vivendo na miséria – o país deve enfrentar tempos ainda mais sombrios, pois estima-se que os confrontos nas ruas entre manifestantes e as forças de segurança podem atingir a temperatura máxima antes da formação da nova Câmara, prevista para acontecer até o fim desta primeira semana de agosto. Durante o processo eleitoral, calcula-se que 15 pessoas tenham morrido em situações decorrentes dele, e o mundo viu com mais apreensão a realidade enfrentada pelos venezuelanos.

Com nada menos do que onze países das Américas repudiando publicamente o processo autoritário pelo qual o governo tenta se perpetuar no poder, a pergunta mais frequente é de fato o que irá acontecer com a Venezuela, que numa época se ufanava de ser um país muito rico por causa de suas reservas de petróleo. No entanto, as respostas são tão nebulosas quanto os meios escolhidos pelo sucessor de Hugo Chávez, que só fez demonstrar eficiência surpreendente para destruir o legado deste. Analistas políticos consideram que elas virão de três cenários possíveis: se a oposição conseguir que Maduro renuncie e saia “pela porta da frente”, se ele insistir em empurrar o país para o precipício e se, por milagre, abrir-se ao entendimento e à possibilidade de ajudar a população a ver alguma luz no fim do túnel.

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