Afinal, para que servem os cenários?

Raimundo Carrero *

Publicação: 31/07/2017 03:00

Há quem diga que a prosa contemporânea dispensa os cenários. Nada mais equivocado. Em momento algum a prosa pode dispensar os cenários que, aliás, são enriquecedores. Claro, se o cenário é jogado no texto apenas para iludir o leitor pela beleza ou pela feiura, sem função e efeito, deve ser descartado. Se tem, no entanto, uma destinação técnica deve ser usado. Muitas vezes, Graciliano Ramos evitava os cenários, que lhe pareciam  turísticos, para vender paisagem a turistas. Jorge Amado, por exemplo, costumava vender paisagens e mulheres – Gabriela, uma delas.

Na verdade existem, pelo menos, quatro tipos de cenários: a – natural; b – humano; c – psicológico e b – metafórico. Natural é aquele cenário local ou regional que ilustra  personagem e define o ambiente; humano, cenário que enfoca pessoas  ou personagens decisivos para cena;

Psicológico, aquele que revela o estado de espírito do o dos personagens; e metafórico, e ainda revela o conflito do personagem através de imagens, símbolos ou emblemas.

Além disso, o cenário conduz o ritmo psicológico do leitor e dá o andamento da narrativa. E ainda mais: contribui para a sedução definitiva do leitor, pelo encantamento ou pelo ritmo.

A – cenário natural:

O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno inverno, a primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza de pérola. Há grilos nos recantos sóbrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos... Sobre fundo vermelho baço, pinceladas verdes, lilases e reflexos carminados nas águas. No verão, a umidade do mar põe um brilho luminoso na atmosfera. Uma capa viscosa cobre todas as coisas.  

Lawrence Durrel – Quarteto de Alexandria; Daniel Gonçalves, Ulisseia, Lisboa, 1973. –

B – Cenário humano:

A escola terminara. Por sobre o pátio cimentado e pelo portão corriam bandos de libertados, dividiam-se e se afastavam para a direita e para a esquerda. Os alunos mais crescidos seguravam, com dignidade, suas trouxinhas de livros apertadas ao ombro esquerdo, remando com o braço direto contra o vento e de encontro ao almoço: os petizes se punham alegremente a caminho, fazendo o minga de gelo respingar em volta deles  e os sete instrumentos da ciência batem dentro das pastas de couro de foca; Mas, de vez em quando,  com expressão de beatitude nos olhos, todos arrancavam o boné para um professor de chapéu alto e barba de Júpiter qe caminhava com  passos comedidos.

Thomas Mann, Tonio Kroeger, Maria Deling, Abril Cultural. São Paulo

C – cenário psicológico:

O dia estava amanhecendo. Nem era preciso a claridade, a imprecisão das matas se descobrindo; a lerdeza do ar frio. Bastava o desafio dos galos, o cântico dos passarinhos, os ruídos que anunciam amanhã. À noite os ruídos são escondidos, misteriosos. Durante o dia, não; Durante o dia os galos cantam vermelho, um  grito aqui; outo acolá. Não sem solidão. Mas sem o encanto da noite.

Raimundo  Carrero. O delicado abismo da loucura. Iluminuras p. 131

4 – cenário metafórico:

Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável vila sertaneja. O sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas.Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo sol esbraseado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de  Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante  anos entre pedras selvagens, como pode a respiração fogosa dessa Fera estranha, a Terra – esta Onça-Parda que é dona da Parda, e que, há milênios, acicata a nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino ou para o Sol.

Ariano Suassuna - A Pedra do Reino. Editora José Olympio, 1971, Rio.

Todos esses cenários podem e devem ter funções diferentes, dependendo sempre do criador, daquele que planeja e inventa o texto literário, consciente de sua tarefa.  Sempre destacando que  o criador é o único verdadeiramente autorizado a tomar decisões técnicas ou espontâneas, considerando ainda que a espontaneidade é também uma técnica. O escritor norte-americano Henry Miller admite que a única técnica que ele conhece é a não técnica, ou seja, escreve conforme a experiência vivencial.

O uso da técnica não significa camisa de força mas liberdade para o criador que conhece os melhores caminhos para seduzir o leitor.

* Escritor e jornalista

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