Homo sapiens, o livro de cabeceira de Obama

Maurício Rands *

Publicação: 31/07/2017 03:00

Há um ano no topo dos livros mais vendidos em todas as línguas, influenciando líderes do planeta, como seu leitor Obama. O livro Sapiens, uma breve história da humanidade, de Yuval Harari, traz uma maneira especial de entender por que somos o que somos. Como ele relata, há 13,5 bilhões de anos, matéria, energia,  tempo e espaço surgiram com o Big Bang. A história disso é a física. Uns 300 mil anos depois, o relato dos átomos, moléculas e suas interações fez surgir a química. Há 3,8 bilhões de anos, certas moléculas combinaram-se em organismos, cujo relato é feito pela biologia. No período entre 70 mil e 30 mil atrás, o Homo sapiens começou a formar as culturas. O desenvolvimento dessas culturas é chamado história. Três revoluções deram curso à história. A  primeira, a revolução cognitiva, há 70 mil anos. Nesse período os sapiens desenvolveram novas maneiras de pensar e se comunicar a partir de mutações genéticas que transformaram as conexões dos neurônios cerebrais. Uma nova linguagem surgiu. Mais flexível, capaz de transmitir informações sobre o imaginário, sobre coisas inexistentes, sobre ficções. A partir daí, a possibilidade de cooperação encontrou campo fértil. Mitos, lendas e ideologias fizeram com que os indivíduos da espécie sapiens do gênero humano pudessem cooperar com um número incontável de estranhos. Criando jogos e interações cada vez mais complexos. Por isso, o sapiens logrou se impor e dominar o mundo. A começar pela destruição de outros contemporâneos do gênero humano: homo erectus, neanderthalensis, floresiensis. Ao dominar outros gêneros e espécies, o sapiens fez muitos deles desaparecer. A outros, como aos animais domesticados, infligiu sofrimentos que ainda hoje os faz sentir e sofrer, mesmo sendo menos inteligentes. Depois, há 12 mil anos, veio a revolução agrícola. Com ela, o ato de semear e colher num lugar fixo. Vieram as aldeias, cidades e impérios. E aí o desafio de superar uma grande contradição. Os antigos coletores-caçadores, fossem sapiens ou de outras espécies, viviam em grupos de 20-50 pessoas. Em 2,5 milhões de anos de evolução, acumularam bagagem genética para cooperar apenas no nível do seu pequeno grupo de semelhantes. Mas depois da revolução agrícola foram instados a cooperar em grande escala com estranhos. Antes, a revolução cognitiva tinha permitido a  crença em mitos comuns, como feitos de antepassados, deuses e pátrias. Essas crenças permitiram que o sapiens superasse essa grande contradição. Um impulso genético – o da não cooperação com estranhos -  era desafiado por necessidades das novas condições de vida. Até hoje essa contradição está mal resolvida. Por um lado, há grande convergência e integração no modo de viver, nas tecnologias, nos deslocamentos de todos os povos da Terra. Mas, por outro, permanece o impulso para destruir ou discriminar os que não sejam muito próximos. Ou muito semelhantes.

Depois, há apenas 500 anos, veio a terceira grande revolução – a  científica. Gente como Descartes, Kepler, Galileu, Newton e Bacon esclarecendo as causas e efeitos dos fenômenos do mundo natural. Com base na observação e experimentação.  Indo além dos mitos da Escolástica, como o do sistema geocêntrico de Ptolomeu que concebia o Sol girando ao redor da Terra. O modo científico de raciocinar abriu espaço para o grande desenvolvimento das tecnologias que mudaram em poucos anos o modo de viver no planeta. Integrando-o e, paradoxalmente, criando o potencial para destruir até mesmo a espécie que o conquistou e integrou. Como Harari conta no livro que se sucedeu ao primeiro best-seller. Em Homo dios, ele nos alerta para os graves riscos que rondam a própria sobrevivência do sapiens no planeta.

* Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de direito da UFPE

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