EDITORIAL » Abreu e Lima e o colapso da Venezuela

Publicação: 29/07/2017 03:00

De todos os estados do Brasil, Pernambuco talvez seja aquele que mais tem razões para sentir-se próximo dos acontecimentos da Venezuela. Daqui saiu um dos mais destacados combatentes do exército de Simón Bolívar, que libertou aquele país do jugo colonial, o general Abreu e Lima, hoje considerado um dos heróis da independência venezuelana, ocorrida no século 19. Tão próximos estamos que em março de 2003 o município de Abreu e Lima (denominação dada em sua homenagem), na Região Metropolitana do Recife, recebeu dois presidentes para ato que celebrava a libertação latino-americana: Hugo Chávez, da Venezuela, e Lula, do Brasil. Na ocasião eles inauguraram dois bustos de bronzes instalados na cidade, o de Bolívar e o de Abreu e Lima.  

Feita a contextualização histórica, passemos ao presente – e o presente não é alvissareiro para a pátria vizinha. Nenhum outro país da América Latina vive hoje crise tão profunda. Politicamente cindido em duas posições inconciliáveis – a dos defensores do presidente Nicolás Maduro e a dos seus opositores –, a nação está sob colapso social e econômico. Mais de uma centena de mortos nas manifestações contra o governo, escalada autoritária de Maduro e um futuro incerto. A economia em frangalhos, o desemprego em alta, inflação fora do controle e renda em baixa. A cesta básica no país custa 15 salários mínimos, e 93% da população não conseguem comprá-la, segundo reportagem recente do Financial Times.  

Neste domingo está marcada a votação para a Assembleia Constituinte, convocada pelo governo Maduro com o intuito de alterar a Constituição (“para garantir meios de se perpetuar no poder”, segundo acusações da oposição). O país está sob greve geral, liderada pelos oposicionistas. Diante do clima de confronto, o presidente determinou a proibição de qualquer protesto até o fim da votação, e as Forças Armadas assumiram o controle da polícia. Nesta sexta-feira, o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos divulgou comunicado afirmando que “está profundamente preocupado com o risco de maior violência na Venezuela”.  

Os acontecimentos na Venezuela têm rebatimento em outro setor, que preocupa a ONU: o dos refugiados. As Nações Unidas temem que o clima de instabilidade social e política e as dificuldades de sobrevivência de parcela da população levem à criação de um fluxo de refugiados e migrantes. Nesses primeiros seis meses do ano, 52 mil venezuelanos já pediram asilo no exterior, segundo dados da ONU. Em todo o ano de 2016 foram 27 mil. Estima-se que no Brasil estejam hoje cerca de 30 mil venezuelanos.  

A votação deste domingo não pacificará o país, e todos os indicativos são de que o clima de instabilidade e confronto permanecerá. Quando esteve em Abreu e Lima, em 2003, Hugo Chávez também enfrentava acirrada oposição. Em discurso na ocasião, ele disse: “Falo hoje o que falo sempre. O que acontece na Venezuela é consequência daquele tempo. O próprio libertador da Venezuela [Bolívar] foi expulso do país”. Na América Latina o passado parece estar sempre agarrado ao presente. 

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