Dinheiro há

José Luiz Delgado *
jslzdelgado@gmail.com

Publicação: 27/07/2017 03:00

O menino, meio perplexo com as contradições dos pais, que ora recusavam seus pedidos sob o argumento de que aquilo que ele queria era caro, ora faziam gastos que lhe pareciam desnecessários, achou de confrontá-los diretamente: “afinal, somos pobres ou somos ricos?” É dúvida que pode ser posta também diante do nosso Brasil: somos, afinal, um pais pobre, de terceiro mundo, às voltas com mil e uma carências, ou um país rico? Pois o governo vive entoando intermináveis lamúrias e se queixando das imensas dificuldades que está enfrentando, mas o fato é que dinheiro há.

Viu-se agora, com a liberação das chamadas emendas parlamentares, para conseguir na Câmara os votos que impedissem a autorização do processo contra o Presidente. Milhões foram liberados com extrema facilidade.

Dinheiro há. Tanto que, dificultadas as riquíssimas e absurdas eleições (para que as produções eleitorais caríssimas e o recurso a endeusados marqueteiros?), tanto pela proibição de doações de pessoas jurídicas quanto pelas investigações da Lava-Jato, que desnudaram o que nem a Justiça Eleitoral nem os Tribunais de Contas nunca conseguiram descobrir, as gigantescas irregularidades nas campanhas eleitorais – os políticos acharam de engordar substancial e desmesuradamente o tal “Fundo Partidário”, instituindo, na prática, um financiamento público das campanhas. Para esse fundo, ou seja, para os políticos, dinheiro há.

Dinheiro há. Como não teriam sido muito menos dispendiosas as obras públicas neste país, se não tivesse havido a corrupção ostensiva, sistemática, desenvolvida como programa de governo, para se perpetuar no poder! Sobre todas as obras, algumas necessárias, outras inventadas (e inventadas somente para permitir o desvio das verbas, como muitas das “arenas” para a Copa inútil), cobrava-se absurdo sobrepreço, pago, obviamente, pelo conjunto dos cidadãos brasileiros.

Dinheiro há. Há, farto, à larga, para financiar auxílio-moradia de quem não precisa, auxílio-alimentação, auxílio-paletó, indecentes penduricalhos que as castas – parlamentares, juízes, procuradores –  inventam e insistem em manter.

Dinheiro há. E tanto que o governo permite-se desonerar certas atividades e certas empresas. Permite-se não cobrar dívidas – fabulosas dívidas previdenciárias, por exemplo, que, se viessem para os cofres públicos, em muito amenizariam o meio fictício “déficit” da previdência...

Para as elites de sempre, dinheiro há. Não há dinheiro para o pobre e para o pequenino. Para a maioria imensa, que é constituída de trabalhadores honestos. Para um austero e consistente desenvolvimento nacional. Piores do que a saúva, ou o Brasil se livra dessa casta de canalhas ou ainda amargará por muito tempo a desilusão dessa geração pós-regime militar, que perdeu a História e está perdendo a esperança.

* Professor de Direito da UFPE

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