O Cão sem plumas de Seu Mita e Dona Socorro

Márcia Alcoforado *
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Publicação: 26/07/2017 03:00

Foi num desses raros estiados domingos de julho deste ano no Recife que decidimos ir de bicicleta até o Parque do Baobá às margens do Capibaribe. À sombra dessa bela espécie africana, fomos saudados por um senhor que tivemos a sensação de já conhecer, e nos acenava de dentro de um pequeno barco. Apresentando-se como Seu Mita, nos disse ser de uma família, que há pelo menos três gerações, vive da travessia naquele ponto. Caso embarcássemos com ele, nós e as bicicletas, assegurou-nos: poderíamos chegar até a Ilha do Retiro. Irresistível convite, adentramos sem pestanejar no bote. Mais do que encurtar caminhos, nos seduzia a possibilidade de tal intimidade com o rio. Não que fosse novidade. Certa vez a partir da sua foz, o subimos sobre um caiaque duplo. Na ocasião, aproveitamo-nos da maré alta, que ao diluí-lo, liberava-o um pouco da carga da travessia. Assim misturado, disfarçava bem o cheiro e as suas más condições. Mas aquele novo encontro que o barqueiro ora nos sugeria, parecia bem diferente. Estaríamos longe do oceano. Ademais, já se ia também uma boa distância em que “ele” adentrara o Recife. Talvez assim, nós e o rio, na meia-idade e no meio do caminho, poderíamos enfim ser quem somos. Durante a descida, Seu Mita nos fez entender porque achamos que o conhecíamos. Frequentemente entrevistado pela mídia, nos falou até de um Globo Ecologia dedicado ao seu rio, em que foi ouvido. Longe de mostrar satisfação com a “fama”, foi com um desencanto no olhar – ao mesmo tempo em que desenrolava com habilidade um plástico que parara a hélice do seu motor - que concluiu que as tais reportagens, mesmo veiculadas amplamente, em nada tinham alterado a situação do seu velho amigo. Nos contou emocionado que o caudal que ora descíamos o viu crescer, mas é bem diferente daquele em que nadava quando criança. Impactados pela visão da cidade sob um ângulo completamente diferente - de dentro para fora vimos passar os prédios emoldurando a paisagem, meros coadjuvantes. Nas margens, ao alcance das nossas mãos: o lixo, a lama, as manilhas despejando esgotos, as raízes altas - muitas com sacos plásticos dependurados – e pequenos socós. Cada qual com o seu cheiro, entranhando-se pelos nossos narizes, quem sabe se buscavam alcançar os nossos corações. No centro de tudo, o Cão parecia alheio, distante, mantinha uma dignidade bonita de se ver. Seguia sua direção: buscava o mar. A sua autenticidade e força nos preenchiam, parecia nos perdoar. Uma das importantes faces da crise hídrica é a qualidade das águas. A poluição dos rios advinda do processo de urbanização desordenado e industrialização acelerada, impõem externalidades ambientais a toda a sociedade e reduzem a disponibilidade. A integração do planejamento ambiental com a gestão dos recursos hídricos torna-se assim estratégica. A principal iniciativa nesta linha em execução no Capibaribe: o seu Plano Hidro-ambiental (PHA) foi elaborado em 2010 pelos órgãos gestores de recursos hídricos do estado. Em avaliação qualitativa realizada em 2014, debruçados sobre o Cronograma de Ações do Plano, Andréa e Cleomacio da Silva (UPE) constataram que dos 24 projetos estabelecidos, menos da metade estava em execução. Dona Socorro, há mais de 20 anos, mantém o Capibar: um espaço em Casa Forte às margens do rio, que ela “decora” com o lixo recolhido das suas águas. Além do espaço, criou junto com a comunidade a ONG Recapibaribe. É ela que nos fala por ele : “O rio brilha, é como se dissesse para nós: Eu sou o coração, eu estou presente, será que vocês não percebem?”. Os projetos do PHA consistem de obras de saneamento, tratamento de resíduos e criação de unidades de conservação previstas para um período de 15 anos. Para universalização do esgotamento sanitário e abastecimento de água em toda bacia constatou-se, à época, a necessidade de cerca de R$ 1,8 bilhão. O estudo dos pesquisadores concluiu que para execução e aparição dos resultados do PHA será necessária além de uma atuação mais comprometida do estado, de uma ampliação da participação da sociedade civil organizada. É esta que decidirá, ao final, se teremos o rio que Seu Mita e Dona Socorro nos ensinam a querer.

* Professora associada do Departamento de Economia/ Pimes/ PPGEC da Universidade Federal de Pernambuco

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