EDITORIAL » Os sórdidos contra os inocentes

Publicação: 26/07/2017 03:00

A maior operação já deflagrada pela Polícia Federal contra a pornografia infantil no Brasil, ontem, resultou na prisão de 30 pessoas (27 delas em flagrante) e trouxe revelações ao mesmo tempo preocupantes e sórdidas. Crianças com idade entre 5 e 9 anos, vítimas de abusadores,  foram resgatadas. Segundo o noticiário, que cita a PF como fonte, os acusados não só armazenavam, como produziam “fotos e vídeos de crianças, adolescentes e até mesmo de bebês com poucos meses de vida, muitos deles sendo abusados sexualmente por adultos”. As fotos e vídeos eram enviadas para contatos que os investigados mantinham no Brasil e outros países.  

Bastaria esse curto relato para constatarmos a dimensão da tragédia. Tem mais, porém. Para quem pensa que o pedófilo tem um perfil, o resultado da operação da PF mostra que não é bem assim. Entre os presos encontram-se médicos,  professores e funcionários de alto escalão de determinados órgãos, disse o delegado Flávio Augusto Palma. Mas também foram detidas pessoas “de condição financeira muito precária”. Tem jovens — estudantes na faixa dos 20 anos —, e também gente idosa. O delegado destacou um deles em particular:  um cidadão de 80 anos, que mal conseguia respirar ou sair da cama.  

Esta foi a 2ª fase da Operação Glasnost (a 1ª fase aconteceu em novembro de 2013). Por que o nome Glasnost, que faz alusão à União Soviética dos tempos de Gorbachev?  Porque o ponto central da investigação foi o monitoramento de um site russo, para o qual convergem pedófilos do mundo inteiro — aí incluídos os brasileiros alvos da investigação.  A ação de ontem envolveu 350 policiais no cumprimento a 72 mandados de busca e apreensão em 51 municípios de 14 estados – entre eles Pernambuco. Os outros 13 foram Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraná, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe. Do ponto de vista geográfico também não há um perfil; temos aí estados do Norte e do Sul, de economia mais ou menos desenvolvida.  

Ao lado do reconhecimento do bom trabalho feito pela PF, vem o aspecto preocupante que é o de supor que esse tipo de atividade não foi extirpado por completo (e nem poderia, em apenas uma operação). Ou seja: não se pode dizer que as crianças estão livres do perigo de serem alcançadas por gente como esta que a PF acaba de prender. Essas pessoas movem-se no mundo real e virtual, estão disfarçadas de “cidadãos de bem”, muitos não despertam a menor suspeita que seja capaz de praticar tais atos – foram a legião de um perigo vasto e sorrateiro. Por isso, além da ação da polícia, é necessária a vigilância de todos – de familiares, principalmente, mas também de amigos, de conhecidos e das comunidades em que vivemos. 

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