Um padre nosso

Luzilá Gonçalves Ferreira *
opiniao.pe@dabr.com.br

Publicação: 25/07/2017 03:00

Ele fora recentemente designado por Dom Helder, para a Paróquia de Casa Forte. Na igrejinha do Poço da Panela, ele nos fizera ouvir o juramento de praxe, por parte dos noivos: fidelidade, cuidado na doença... até que a morte nos venha separar. Então ele se voltou para nós do público: “Vocês estão ouvindo, vocês são testemunhas”...Todo rimos e desde então começamos a conhecer Padre Edwaldo, que durante mais de 40 anos, foi um pastor, um pai, um amigo, um irmão. Com o tempo aprendemos a admirar, respeitar e amar sua figura de batalhador incansável, sua coragem, sua opção pelos injustiçados, sua amizade por ricos e pobres.  Um personagem, presente no dia a dia do bairro, em manifestações folclóricas, aniversários, exposições, festas escolares, em acontecimento tristes ou alegres. Um parênteses de ordem pessoal: nunca faltou ao lançamento de nenhum livro meu, nem de nenhum escritor do bairro. Uma vez agradecida, lembrei: Padre, eu não sou sua ovelha. Ele citou a Biblia: “Não temos todos nós um  mesmo pai? O livro O Padre nosso, escrito por Vera Ferraz, lançado há poucos meses nos traz fatos de sua vida, seu empenho em tornar o mundo melhor do que havia encontrado. Um exemplo: a creche que mantinha, às custas da Festa da Vitória Régia por ele criada e mantida, e com a qual afastou e afasta da pobreza anualmente, mais de 300 crianças: sou testemunha, três gerações de minhas ajudantes domésticas tiveram seus filhos educados, alimentados orientados, durante esses 40 anos. Uns episódios em meio a tantos outros: um adolescente cobiçara e surrupiara o radinho de pilha de um patrão. A mãe procurou padre Edwaldo: o doutor vai dar parte, padre, se ele for preso vai estragar a vida. Padre Edwaldo chamou o menino, obrigou ao pedido de desculpas e devolução. Não houve BO, o doutor perdoou mas reclamou, queixoso da “proteção eclesiástica”. Um emprego foi providenciado ao garoto que hoje trabalha numa empresa de Segurança de Valores. Honestissimo. Outro episódio engraçado: após dias de chuva, um bando de molecotes se divertia num dos tanques da Praça. Uma madame foi reclamar: Padre, os meninos estão tomando banho no tanque. Padre Edwaldo: -Estão sem roupa? E ela: Não padre. E padre Edwaldo: A senhora tem uma piscina, os meninos tem o tanque da praça.

A Casa Paroquial, na Praça da Casa Forte, está tristinha, nosso bairro de repente sem a luz do padre Edwaldo Gomes, sem seu riso, sua amizade.

* Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e Membro da Academia Pernambucana de Letras

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.