O de cima sobe e o de baixo desce

Luciana Grassano Melo *
opiniao.pe@dabr.com.br

Publicação: 24/07/2017 03:00

A temática da desigualdade sempre chamou a minha atenção, exatamente por isso deparei-me com a leitura de um autor que dedica suas pesquisas acadêmicas ao assunto. Branko Milanovic é economista e professor visitante da CUNY – City University of New York e seus estudos e pesquisas procuram explicar as dinâmicas que impulsionam a desigualdade, numa escala global.

Em artigo de 2 de maio passado, publicado no The Guardian e encabeçado por uma foto da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, Milanovic responde a uma pergunta que lhe é frequentemente endereçada: Por que devemos nos preocupar com a desigualdade?

E ele elenca três grandes razões, que eu gostaria de compartilhar com os leitores. De início, afirma que toda desigualdade em tratamento ou posição entre indivíduos, incluída aí a desigualdade de renda e de riqueza, requer compreensão e justificação, isso porque, em princípio, somos todos fundamentalmente iguais. Com isso ele não quer dizer que todos devemos ter os mesmos salários e rendimentos, até porque nosso esforço e sorte podem variar, mas que precisamos pensar sobre as razões para toda e qualquer desigualdade.

Em seguida, ele afirma que precisamos nos preocupar com a desigualdade para descobrir se a existência dela acelera ou retarda o progresso econômico. E com base num argumento de senso comum, fundado em evidências empíricas que sugerem que nenhum dos dois extremos é bom, ou seja - nem a situação em que todos tenham iguais rendimentos e riquezas, nem a situação em que a desigualdade seja extremamente alta – ele propõe o seu objetivo de identificar que tipos de desigualdade podem ser boas para o crescimento (por exemplo, a desigualdade que se justifica por um maior ou menor esforço do indivíduo) e outros tipos de desigualdade que não seriam boas para o crescimento econômico (como as desigualdades baseadas em gênero, raça ou direitos de herança).

Por último, Milanovic chama a atenção para a importância em se compreender a relação entre a desigualdade e a política. E afirma que em todos os sistemas políticos, até mesmo nas democracias, os ricos tendem a ter mais poder político e o grande perigo é que esse poder político seja usado para promover políticas que consolidem ainda mais o poder econômico dos mais ricos. E sentencia: “Quanto maior a desigualdade, mais provável é que nos afastemos da democracia para a plutocracia”.

É exatamente isso o que refletem as atuais políticas públicas no Brasil. Todas elas políticas que agravam a desigualdade social num país já extremamente desigual e que consolidam o poder econômico e político, cada vez mais, nas mãos dos mais ricos.

Se Milanovic escolheu essas três grandes razões para explicar porque se preocupa com a desigualdade, Josué de Castro, teórico brasileiro da fome e do subdesenvolvimento - porque fome e subdesenvolvimento são a mesma coisa – traz uma razão e um apelo final: “Não podemos viver num mundo partilhado por 2/3 que não comem e, tendo consciência das causas da fome, se revoltam, e 1/3 que come bem – às vezes até demais – mas que já não dorme com medo da revolta dos 2/3 que não comem”.

* Professora de Direito da UFPE.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.