Um domingo no parque ou no shopping?

Zeca Brandão
Arquiteto e urbanista, PhD pela Architectural Association School of London e professor associado da UFPE

Publicação: 15/07/2017 03:00

Domingo passado resolvi ir ao cinema com a minha família num dos muitos shoppings da cidade. A ideia era fazer uma compra rápida, almoçar e concluir o programa assistindo a um filme. No caminho, as ruas estavam desertas, com alguns poucos ciclistas percorrendo um circuito pré-determinado pela prefeitura. Como há muito tempo não vou a shopping, fiquei surpreso com a multidão que encontrei lá. Pessoas de diferentes idades e classes sociais se divertiam, ocupando não só as lojas mas, sobretudo, os espaços comuns do equipamento. Nunca ficou tão claro para mim o dilema que vive o urbanismo brasileiro: consolidar um modelo vigente de privatização do espaço público ou resgatar a importância dos espaços urbanos das cidades tradicionais.
Na verdade, esse primeiro modelo de cidade a que me referi acima surgiu na década de 1950 do século passado, com a consolidação da indústria automobilística e a construção de uma série de espaços urbanos projetados segundo princípios modernistas. Desde então, arquitetos urbanistas do mundo inteiro passaram a propor uma renovação radical da cidade tradicional através de uma massiva engenharia viária, um rígido zoneamento monofuncional e o protagonismo do edifício em detrimento do espaço urbano.
Gradativamente, a cidade foi sendo reconstruída dessa maneira, com sua arquitetura solta no lote e isolada em grandes áreas livres, substituindo as quadras compactas e os espaços públicos bem definidos, que caracterizam a cidade tradicional. Novos bairros foram projetados priorizando o uso do automóvel e a cidade modernista surgiu com sua paisagem urbana dispersa, composta de supermercados, condomínios fechados e shopping centers, conectados por grandes avenidas expressas. As pessoas passaram a ir para os seus destinos e voltar para as suas moradias de carro, vivenciando o espaço urbano como simples observadores, e não mais se apropriando dele como usuários. Ao cruzarmos esses espaços em carros climatizados e numa certa velocidade, não nos sentimos parte dele. Não enxergamos as suas particularidades, não percebemos a sua acústica, nem sentimos o seu cheiro.
O processo de privatização dos espaços públicos, algo que parece ser uma tendência mundial, assume proporções ainda mais assustadoras em países em desenvolvimento como o nosso, onde as tensões da desigualdade socioeconômica se materializam nos espaços urbanos. A ideia de socializar-se em espaços fechados com segurança e conforto torna-se irresistível para a população. O problema é que neste contexto instala-se um ciclo vicioso, no qual usamos cada vez menos os espaços urbanos que, por sua vez, recebem cada vez menos investimento público e se deterioram, favorecendo assim o mercado imobiliário que oferece espaços “públicos” controlados cada vez mais sofisticados.
A história do urbanismo nos mostra que, na maioria dos casos, as cidades podem ser reinventadas. Entretanto, o grau de dificuldade aumenta na medida em que a cidade indesejável se consolida. Dessa forma, a decisão de construirmos uma cidade priorizando os seu espaços urbanos precisa ser tomada com urgência, antes que o quadro se torne irreversível. Caso contrário, continuaremos iludidos com a propaganda enganosa de encontrar qualidade de vida morando em condomínios exclusivos, trabalhando em empresariais protegidos e se divertindo em outras bolhas, como os shopping centers.

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