Crise política, reformas institucionais e a economia

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 15/07/2017 03:00

A semana começou agitada. Aumento das perspectivas de afastamento de Temer, apesar do seu sucesso na CCJ, condenação de Lula, e aprovação da reforma trabalhista sob um papelão de conjunto restrito de senadoras. Além disso, estatísticas do IBGE demonstraram que o desempenho das vendas no varejo em maio foi positivo. Nos mercados, o conjunto gerou otimismo. A bolsa subiu e o dólar caiu, com a perspectiva de maior segurança da economia brasileira, gerada entre investidores estrangeiros que se sentiram mais seguros em trazer dinheiro para o Brasil. O impacto econômico da reforma trabalhista é muito grande, pois ela criará previsibilidade para os custos empresariais. Até hoje no Brasil os excessos da justiça do trabalho por causa do anacronismo da legislação trabalhista e desvios de alguns de nossos valores éticos dominantes fazia com que os custos efetivos do trabalho fossem desconhecidos, o que destrói a capacidade de planejamento das atividades econômicas. O impacto disso na produtividade é tremendo e todos estamos mais pobres hoje por causa dessa distorção das regras institucionais brasileiras. Todos nós brasileiros acordamos no dia seguinte à aprovação da reforma trabalhista com a perspectivas de ficarmos mais de 20% mais ricos nos próximos dez anos. Nesse todos incluem-se todos brasileiros mesmo.
A reforma trabalhista trouxe também algo que no futuro vai ser uma marca na história do país. Em 1888 um contingente elevado de brasileiros foi reconhecido como aptos a comandarem a sua própria vida, sem a tutela dos senhores. Os escravos avançaram no respeito a eles como gente, capazes de trabalhar a partir da entrada em relações contratuais em que eles tinham direito a escolher se e para quem se dispunham a trabalhar. Em 1920 as mulheres foram reconhecidas como cidadãs iguais aos homens e ganharam o direito ao voto, enquanto na Constituição de 1988 os analfabetos foram reconhecidos como gente igual aos alfabetizados no seu direito de participar das decisões sobre a sociedade de que fazem parte. Demos novos grandes passos civilizatório nessas datas. Em 2017 finalmente todos os trabalhadores ganharam o reconhecimento de que são capazes de negociar as regras que seguirão no trabalho, sem precisar da tutela de uma classe média que até então ainda se julga mais sabida do que os demais trabalhadores e que por tal deve decidir a natureza das relações trabalhista para essa maioria, sem a participação deles. O que ela conseguiu foi reduzir o padrão de vida de todos e jogar 40% dos trabalhadores para a margem da Lei, além de criar 80% das causas trabalhistas do mundo em um país com menos de 3% da população mundial. Ou seja, a aprovação da reforma trabalhista faz parte de um processo civilizatório e de avanço do respeito à cidadania que vai marcar nossa história assim como a abolição da escravidão e os votos femininos e dos negros. Um afastamento de Temer, por sua vez, se feito dentro da ordem institucional também representará um grande avanço para a consolidação democrática no país. Ou seja, a semana se encerra com todos nós brasileiros de parabéns pelas nossas conquistas.

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