EDITORIAL » Os pacientes do Brasil

Publicação: 15/07/2017 03:00

Uma queixa recorrente de pacientes que buscam atendimento médico é de que a espera para conseguir a consulta é longa e a consulta em si é rápida demais. O noticiário dos últimos dias trouxe relatos de casos em que as pessoas reclamavam de consultas que não tinham durado “nem cinco minutos”. Os casos diziam respeito à rede pública, e viraram notícia a partir de programa lançado esta semana pelo Ministério da Saúde, que consistirá no uso da biometria para tentar controlar a jornada de trabalho dos médicos.
O programa em si já tem potencial suficiente para gerar debates sobre o assunto. Por exemplo: pretende que as consultas tenham no mínimo 15 minutos de duração, que é o padrão recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O modelo a ser implantado em todas as unidades básicas de saúde atuará em duas frente, de acordo com o Ministério da Saúde: acompanhamento das horas trabalhadas e criação de um controle de produtividade a partir do estabelecimento de metas de atendimento. Mas o debate aumentou a partir de frase do ministro Barros, no lançamento do programa. “Vamos parar de fingir que a gente paga médicos, e o médico parar de fingir que trabalha”, disse ele. A primeira parte da frase, sobre o pagamento, não teve repercussão, mas a segunda, sobre o “fingir que trabalha”, espalhou-se pelo país inteiro e gerou reações das entidades representativas da categoria. O Conselho Federal de Medicina (CFM) considerou a afirmação como “pejorativa, inadequada e reflexo da incapacidade de autoridades em responder às necessidades da população”. O presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, Lavínio Nilton Camarim, disse que “a responsabilidade do mau atendimento” era do governo e lembrou exemplo de médicos do seu estado, que com quatro meses de salários atrasados continuaram atendendo os pacientes.  
O ministro e as entidades da categoria devem ter suas razões para dizer o que disseram. É importante destacar que toda generalização é injusta e que não se pode demonizar os médicos e médicas pela prática de alguns — por mais numerosos que sejam estes “alguns”. Da mesma forma é fundamental ressaltar que, alheia à polêmica das frases, a população tem razão em queixar-se dos atendimentos (a propósito, não só na rede pública…). Aos pacientes, não interessa saber a quem cabe a responsabilidade pelo atendimento — ela quer solução para o seu problema, quer encontrar o profissional quando chega a data marcada para a consulta e vai ficar satisfeita se for posta em prática a determinação de que a consulta deve ter no mínimo 15 minutos. Daí que, passado o acirramento das posições no momento do debate, convém não perder de vista o fato principal: o de que a prioridade de todos deve ser o atendimento às necessidades da população.

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