Uma política pública para os animais de rua

Luiz Ernesto Mellet
Gestor governamental da Secretaria de Planejamento de Pernambuco

Publicação: 14/07/2017 03:00

A confirmação de uma morte por raiva no final de junho nos alerta para a necessidade da adoção urgente de uma política pública mais efetiva em relação aos animais que vivem nas ruas. É um problema triste. Espelha a condição degradante na qual subsistem cães, gatos e cavalos que perambulam soltos pelas avenidas, calçadas e vielas do Recife.

Não que seja um problema exclusivo de nossa cidade. É um assunto comum que, por um motivo ou outro, assola os grandes centros urbanos nos países em desenvolvimento. Mas vacas são vistas nas ruas de Calcutá porque são sagradas. Enquanto aqui porque o dono é um inconsequente, a fiscalização é falha e não há punição devida a quem faz esse tipo de coisa. Bicho solto pode custar a vida de alguém. Quando não sobra para o pobre animal. Não raro a carcaça de um amanhece largada no acostamento.

Um final de tarde desses, um passageiro gritou da janela do ônibus alertando o condutor de uma carroça que iria matar o animal com tanto peso. O cavalo resfolegava na subida do Viaduto Capitão Temudo puxando uma carga de areia e mais três homens. O do meio chicoteava o lombo da criatura exigindo dela o que não podia: mais velocidade para dar passagem à fila de carros com motoristas impacientes acionando a buzina.

Cenas lamentáveis como essas ainda ocorrem não por falta de legislação específica. A Câmara do Recife tem três leis que dispõem sobre o tratamento de animais. A mais antiga data de 1951 e caso fosse cumprido o que ali está escrito a cidade seria um exemplo de respeito aos bichos. Isso porque a sexagenária lei 1.165 – além de ser uma exaltação em defesa dos animais – é um manual de conduta ética sobre o tratamento que se deve dispensar a eles. Infelizmente, virou uma peça imemorada.

Em geral, cães, gatos e cavalos são habitantes invisíveis das cidades. Estão por toda a parte, mas parece que ninguém vê. Talvez para não encarar o sofrimento a que estão expostos. Isso porque os animais estão sujeitos às formas mais esquivas do mal que habita o coração do homem. E, nesse particular, os cães de ruas são as criaturas submetidas às crueldades mais violentas. O que não deixa de ser uma injustiça inominável.

Num dado momento na evolução humana, um com a cabeça baixa e abanando a cauda se aproximou da fogueira. Desde então, os cães permanecem ao nosso lado numa jornada épica de pelo menos 33 mil anos. Suas pegadas ficaram gravadas na terra junto aos nossos passos quando desbravamos as trilhas mais remotas do planeta. Graças à sua resilência e fantástica capacidade de adaptação, os cães estão até os dias de hoje com a gente. E ocupam lugar na metade dos lares dos recifenses.

Isso para os que têm casa. Mas, mesmo que o tutor disponha de pouco para os cuidados com a saúde de um animal de estimação, ele conta agora com o Hospital Veterinário do Recife. É a primeira unidade de saúde pública do tipo no Norte e Nordeste cuja importância maior não está no ineditismo da obra. Dá-se diante a iniciativa correta e extremamente humana da prefeitura em lançar os olhos para os seres sensientes e indefesos. Que muitos evitam olhar.

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