E o advérbio? O que é que se faz com ele?

Raimundo Carrero *
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Publicação: 10/07/2017 03:00

“A maioria dos advérbios é dispensável.” A afirmação é de William Zinsser no clássico manual de escrita jornalística Como escrever bem, publicado no Brasil pela editora Três Estrelas. À primeira vista é um impacto, mas vendo direitinho e lentamente, ele tem razão. Zinger justifica alertando que muitos advérbios já estão contidos nos verbos e servem apenas para enfeitar a frase. Concordo plenamente.

Zinsser acrescenta: “Você vai sobrecarregar a sua frase e irritar o leitor se escolher um verbo que possui um significado específico e depois acrescentar um advérbio que tem o mesmo significado”. Não diga o locutor “berrou estridentemente”; “berrou” já indica estridência. Em muitos casos, o advérbio é redundante. Pergunte ao verbo se ele quer companhia. E companhia que não acrescenta nada.

Numa cena em que o “personagem correu muito” – escrito assim – o advérbio “muito” sobra mesmo. Sim, sobra. Basta escrever que o personagem correu porque o advérbio já está contido no verbo  e o leitor verá o que de fato aconteceu. No Brasil, temos hábitos de escrita reiterativos e barrocos, por assim dizer.  Não é por acaso que recheamos nossas frases de adjetivos e advérbios, de acordo com a nossa formação. Não se trata de erros, mas não custa nada aprender com o mestre norte-americano. É uma questão de estudo e aprendizado.

Mesmo assim, tenho minhas técnicas quando se trata de literatura, sobretudo considerando aquilo que chamo de “pulsação narrativa, ou seja, o pulso e o ritmo de cada personagens que são pessoas diferentes. Sabendo-se que personagens não são pessoas, mas têm sentimentos humanos. Ou, pelo menos, devem ter. Personagem A, denso e forte, pede apenas um “Correu” – o verbo resolve sozinho; Personagem B precisa de um “correu muito” porque é “inquieto” e “apressado”. Num texto literário, o leitor identificará o personagem pelo ritmo da frase e isso exige habilidade técnica. Estudo, muito estudo. Exercícios; muitos exercícios. Não adianta saber, é preciso praticar.

É claro que você pode – e deve discordar de mim e do mestre norte-americano. Mas antes de escrever pense bem na frase, leia e releia. Não acredite apenas no impulso criador, que é o primeiro movimento da criação; experimente a “intuição’, e a “intuição” vai lhe ajudar muito.

* Escritor e jornalista

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