Transplante de órgãos tem excelente semestre

Cláudio Lacerda
Cirurgião. Professor da UPE e da Uninassau

Publicação: 08/07/2017 03:00

Na contramão da grave crise política, que emperra a recuperação da economia e dos empregos no país, surge uma boa e surpreendente notícia na área da saúde: nunca se realizaram tantos transplantes de órgãos quanto neste primeiro semestre de 2017.

Boa notícia porque, além de se tratar de terapia de alta complexidade, que recupera vidas, produz ciência e forma recursos humanos, contribuindo para elevar a qualidade da medicina em geral, o transplante de órgãos depende da participação de diferentes atores sociais e, por isso mesmo, reflete o nível cultural e o espírito humanitário de uma nação. Com efeito, quando se olha para o cenário internacional da transplantação, percebe-se claramente que as nações de melhor desempenho são aquelas, como a Espanha, que reúnem elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) com um forte sentimento coletivo de solidariedade humana, bem próprio da latinidade.

Aqui, a nossa Unidade de Transplante de Fígado, que atua nos hospitais Jayme da Fonte, Imip e Oswaldo Cruz, realizou, na sexta-feira 30 de junho, o seu transplante número 62 do ano. Como costuma haver um aquecimento da atividade no segundo semestre, tudo leva a crer que fecharemos o ano com mais de 130 transplantes e cerca de 1.250 feitos ao longo da história do programa.

Ao refletirmos sobre os motivos dessa melhora, percebemos que as taxas de recusa familiar à doação de órgãos vêm diminuindo um pouco, embora ainda se mantenham elevadas, girando em torno de 43%, no Brasil e de 54% em Pernambuco. Portanto, essa discreta melhora na conscientização da população não responde pelo forte incremento no número de transplantes, seja no país, seja no estado.

Por outro lado, dois fatos novos estão, ao nosso ver, vêm impactando favoravelmente a atividade ao ponto de justificar os referidos números.  O primeiro foi o decreto presidencial 8783, de 06.06.2016, que tornou disponível, com prioridade, os aviões da FAB para o transporte de equipes de captação de órgãos. O segundo é o que chamo “fenômeno Petrolina”: esta cidade tem-se revelado um dos maiores centros de captação de órgãos do País, graças a uma OPOS (Organização de Procura de Órgãos) formada por médicos e enfermeiros extremamente comprometidos e competentes.

Que esses dois auspiciosos fatos, no atual cenário de incertezas do nosso Brasil se preservem e, sobretudo, sejam replicados em outros segmentos socioeconômicos e em outros espaços do nosso território.

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