Indecência política e desgraça social

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 08/07/2017 03:00

Procuro conhecer lugares quando realizo minhas caminhadas matinais diárias. Antes, de 1973 a 2012, eram corridas de 10 km todos os dias, menos sábados. Meus percursos variavam. Dessa forma, eu entrava em bairros simples e até favelas, do mesmo modo que corria em bairros de renda alta, centros de cidade, estradas e até desertos (o Saara, em Timbuctu, no Mali, onde passei uma semana em 1986). Foi assim que conheci áreas de Luanda (Angola) em plena bagunça depois de duas décadas de guerra civil. Subi e desci ladeiras pronunciadas em Berkeley (Califórnia). Mas na Índia, era tanta gente na rua que não deu para correr. Passei a caminhar em 2012 por razões médicas. Em Olinda, onde moro, geralmente passo pelo bairro modesto de Amaro Branco, por ruazinhas estreitas, em algumas das quais carro não entra. Percorro também a favela do V-8, considerada zona perigosa. Nunca, graças a Deus, sofri qualquer ameaça. Em compensação, posso ver as condições reais em que vive parcela substancial de nossa população, coisa que não é constatada por quem corre apenas no Parque da Jaqueira, na praia de Boa Viagem, nas ruas de Casa Forte.

E o que eu testemunho é uma realidade de extremo abandono. Imundice monumental em toda parte. Alagamentos duradouros quando chove. Casas de grande precariedade. Gente se alimentando logo cedo de porcarias como refrigerantes (induzidos pela televisão e seus poderes de convencimento) e comidas embaladas em papel de alumínio, cujo conteúdo certamente mereceria severa reprovação caso houvesse vigilância rigorosa da saúde pública acerca de maus hábitos dietéticos da população. Os ambientes, quanto mais miseráveis, menos oferecem uma visão que agrade. Aliás, nesse ponto, tampouco se pode dizer que a arquitetura medíocre, vulgar e agressiva dos prédios que se erguem no Recife e Olinda proporcione qualquer visão que possa causar prazer visual. É o caso do monstrengo no antigo quartel de Casa Caiada, onde um shopping está sendo construído; caso ainda das novas torres da rua da Aurora, como as mais antigas do cais de Santa Rita. Entre esses pontos de contraste e celebração da feiura, as desigualdades de nossa sociedade de projetam. Os pobres e excluídos da V-8 e de Amaro Branco fazem parte da mesma população que permite enriquecimento ilícito desmedido dos que desviam dinheiro público, e dos que se encastelam em castas privilegiadas de servidores públicos que ganham como se fossem potentados de países árabes. Cada vez mais, fica-se sabendo de setores abastados que gozam férias de 2 meses ou mais por ano, que possuem auxílio moradia e de transporte, planos de saúde gratuitos e outras benesses como se isso fosse um direito divino.

O mal-estar que tudo isso causa se acentua quando se percebe que países verdadeiramente ricos como a Suécia, a Dinamarca, o Canadá – com mínimos índices de corrupção também – projetam algo muito mais decente e aceitável. As profissões privilegiadas no Brasil se resguardam atrás de reservas de mercado, tal como, por razões compreensíveis, ocorre com certas especialidades médicas, no caso das quais o interesse primordial não é elevar os ganhos de renda de seus praticantes, mas bloquear a invasão de charlatães e incompetentes. O Brasil passa por momentos de grande aflição. Não se tem esperança. Não se vê um raio de luz que sinalize o fim da escuridão a que estamos sendo levados. A sensação que se experimenta é a de que o país é uma miséria de concepção de projeto de nação, uma indecência política, uma desgraça social. Estamos promovendo aqui, de forma exacerbada, a tendência que o jovem e brilhante economista francês Thomas Piketty retrata com enorme precisão, à base de reunião fantástica de dados empíricos, única no mundo, em seu livro O Capital no Século XXI, de 2013. A obra, publicada quando o autor tinha 42 anos, com tradução brasileira impecável da economista Monica Baumgarten de Bolle, evidencia que a tendência de aumento da desigualdade de renda e patrimônio, no mundo, é mais acentuada do que a de igualdade. Diz Piketty: “a história da renda e da riqueza é sempre profundamente política, caótica e imprevisível”. A forma como essa história evolui, completa, “depende de como as diferentes sociedades encaram a desigualdade e que tipo de instituições e políticas públicas essas sociedades decidem adotar para remodelá-la e transformá-la”. Isso é tudo o que o Brasil não vem fazendo. Agravado pelo fato de que, pela análise de Piketty, a anulação da tendência à desigualdade requer investimentos em capital humano – “aumento do nível geral de educação e formação”. Ou seja, a convergência para a equalização impõe que se promova “a difusão do conhecimento”. Isso não é possível com gente vivendo em sua maioria nos extremos da exclusão – e quando elites parasitas, de todo tipo de rentistas, ao mesmo tempo, só fazem criar muros em torno de seu condomínio social, eletrificado e guardado por exércitos de seguranças e cúmplices.

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