EDITORIAL » Um degrau a mais na crise política

Publicação: 08/07/2017 03:00

Os holofotes da crise política brasileira voltaram-se para o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ele reagiu afirmando que “precisamos ter muita tranquilidade e prudência neste momento”.  O movimento em direção a Maia, que ganhou rapidez e volume nesta sexta-feira, deve-se ao fato de ser ele o primeiro nome na lista da sucessão presidencial. Na eventualidade de Michel Temer deixar a Presidência da República, é ele quem assume.

A temperatura em relação à permanência de Temer no cargo elevou-se em Brasília após a possibilidade de o PSDB deixar o governo ecoar em fala do presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati (CE). O Brasil “caminha para a ingovernabilidade”, disse ele, argumentando que numa eventual transição Maia poderia garantir a governabilidade até 2018, quando teremos eleições. O PSDB é o principal aliado do governo, e sua saída da base poderia provocar uma debandada dos outros partidos que apoiam Temer.

Tasso é favorável à saída dos tucanos, e é explícito ao falar sobre o assunto — comportamento que já é um indicativo de como a proposta evoluiu no partido, uma vez que esse tipo de articulação costuma ser cercada de sigilo. O presidente interino do PSDB informou que está “aberto” para a busca de uma “saída negociada” com Temer e até já teria conversado com outras legendas da base governista. “Acho que o ideal é envolver todos os partidos, inclusive os de esquerda”, analisou ele.  Dois fatos da semana podem ter provocado a reação explícita de Tasso: a prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima e a informação de que o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está formulando o conteúdo de sua delação, que atingiria Temer.

Ressalve-se que a posição do presidente interino do PSDB não é um consenso entre os tucanos. Uma poderosa ala do partido — a paulista, que tem nomes de peso como o do governador Geraldo Alckmin, do prefeito da capital João Doria e do ex-ministro José Serra — é contra a saída, com o argumento de que é necessário manter o atual governo em nome da governabilidade. De todo modo, é clara a divisão entre os tucanos. Isso não implica abandono da agenda das reformas tocadas pela atual gestão. “Defendemos as reformas”, disse o senador Ricardo Ferraço (ES), relator da reforma trabalhista. “Se acharmos que Temer não tem mais condições de continuar a conduzi-las, precisamos pensar em uma alternativa".

Foi em virtude dessa ebulição que os holofotes voltaram-se para Rodrigo Maia, na sexta-feira. Um ano e dois meses após o afastamento de Dilma Rousseff, o Brasil torna a ficar diante da possibilidade de nova mudança na Presidência da República. Os próximos dias vão mostrar se a tendência se consolida ou se será revertida.

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