Não ao politicamente correto

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 07/07/2017 03:00

Em gravação no WhatsApp, se pode ver discurso com importante homem público dizendo: No meu governo a Petrobras não é uma caixa preta. É uma caixa branca. E transparente. Após o que completou, rindo, como se fosse algo engraçado: Não tanto assim. Mas transparente. Em frente a esse homem público estava a ministra da Igualdade Racial. Calada. E militantes de movimentos negros. Calados. A fala dizia, claramente, que preto era algo ruim. E branco, ao contrário, uma imagem do bem. Calados estavam. E calados se mantiveram. Em silêncio constrangedor. Cúmplice. Até palmas bateram.

Talvez devêssemos questionar se a fidelidade partidária, ou ideológica, deve ser prevalente em relação a princípios. Tenho dúvidas se esses personagens se manteriam inertes, impávidos, fosse outro a fazer aquelas comparações. E meu sentimento, perdão, é que não. Os direitos das minorias acabam, com essa atitude subserviente dos que aplaudem, reduzidos na sua significação. E no seu valor. Tudo a depender de quem fale. Se um adversário?, cão danado, todos a ele. Se alguém do mesmo credo, do mesmo lado, palmas. Assim é, meus senhores. Mas peço vênia para tratar, aqui, não desse alinhamento automático e tão pouco enobrecedor. E, sim, da praga do politicamente correto.

Para Pondé, se trata de uma forma de mau-caratismo. Não vou tão longe. Mas, simplesmente, não consigo acreditar que a tese do politicamente correto possa fazer sentido a quem pense com amplidão. Escusas por expor essa visão – talvez, para muitos, politicamente incorreta. É que vejo, como primeiro valor de uma democracia, a liberdade de consciência. O que traz algumas limitações óbvias. Uma retrospectiva. Que é não se poder aceitar censura. Nenhuma consciência livre se forma num ambiente de censura. E, outra, prospectiva. Que é o direito de se poder dizer tudo que se quiser. Quando e onde se quiser. Mesmo se ética ou politicamente incorreto.

Fora disso, temos só um puritanismo repaginado. Uma nova inquisição, a serviço de certas convenções sociais cômodas. Quando a questão central, assim considero, é outra. É saber até onde vai o direito de pensar livremente. Qual seria o sentido de ser assim, livre, se não pudermos exprimir, sem limites, essa liberdade de consciência?

Em 1987, o Congresso norte- americano recusou aprovar uma Nova Lei de Imprensa (Libel Reform Act), elaborada pelo Annemberg Institute, que distinguia opinião de notícia. Indicando que notícias falsas, dadas por jornais e outros meios de comunicação social, trariam condenações – civis (indenizações) e penais (restrições à liberdade). Enquanto poderíamos dizer, à vontade, o que quiséssemos. Nesses mesmos jornais e outros meios. Protegendo, como estava na proposta, opiniões, charges e fotos opinativas. Mesmo quando politicamente incorretos.

Penso que, dentro de 100 anos, todas as leis de imprensa do mundo serão assim. Poderemos, então, dizer o que nos der na veneta. O que quisermos. Tudo o que pensarmos. Até mesmo aquilo, hoje, considerado politicamente incorreto. Pena que só no futuro. Por não ser ainda tempo de exercer, sem limites, essa liberdade. As resistências permanecem grandes. Mas penso que essa mudança será inevitável. Por ser importante, para a democracia. E vai mudar porque é preciso mudar. 

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.