A compaixão de Francisco

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 06/07/2017 03:00

Mudam os estilos e os temperamentos, mas a doutrina e o dogma não mudam. Mudam os nomes e os personagens, mas a pedra é a mesma: Pedro. É evidente que não haverá, com Francisco, mudança na doutrina. Mas há um – magnífico - tom novo, um acento maior em posição antiga. Se história da Igreja é feita, como ele mesmo disse, de uma dialética entre marginalizar e reintegrar, a inclinação do papa Francisco é a de acolher, perdoar, recompor, reconciliar. Ele é doce na misericórdia e na compaixão.

Considere-se a situação dos recasados – talvez, a maior dificuldade pastoral que a Igreja enfrenta. Não importa agora discutir as causas do divórcio, nem o mal que ele representa para a sociedade. O fato é que o divórcio está aí e multidões de casais se separam, e terminam constituindo novas uniões e dando nascimento a novos filhos. E muitos desses são católicos e querem continuar sendo. Que fazer?

Francisco escreveu, a respeito, páginas admiráveis, de aguda percepção, na exortação Amoris Laetitia. Compreende as crises dos casais, e nelas identifica fecundas oportunidades de renovação interior e crescimento recíproco, para o qual a companhia e a ajuda de casais mais experientes e mais provados deverá ser valiosa. Sobretudo distingue as diferentes situações pessoais, discerne as separações que são inevitáveis, ou até “moralmente necessárias”, em que é “preciso por um limite firme às pretensões excessivas do outro”, mas que são sempre “um remédio extremo”. Sabe da “angústia daqueles que sofreram injustamente a separação” e declara que “não estão excomungados” e que “ninguém pode ser condenado para sempre”. Reconhecendo que uma “pessoa, no meio de uma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não sendo culpável ou não o sendo plenamente – pode viver em graça de Deus, pode amar e pode também crescer na vida de graça e de caridade”, lembra que “um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades”.

A Igreja sabe que “toda ruptura do vínculo matrimonial é contra a vontade de Deus”, mas também está consciente da “fragilidade de muitos de seus filhos”. Se sempre “é preciso ter cuidado com a integralidade da doutrina moral da Igreja”, não se pode também esquecer “o amor incondicional de Deus”, que é sempre, para nós, “imerecido e gratuito”. Deve dar, portanto, maior valor à retidão e à generosidade da vida inteira do que ao minucioso cumprimento de regras severas e exigentes. Esposa de Cristo, a Igreja é aquela que Deus ama e na qual, como dizia Paulo VI, quer ser encontrado. Ela não é dona da doutrina que prega. É apenas serva. Não a formulou, não a concebeu; apenas a repete, apenas a transmite. Não é dona do depósito, não pode mexer nele segundo lhe convenha, esticá-lo, deformá-lo, suavizá-lo, modificar um til. Mas Deus é sempre infinitamente maior do que qualquer coisa. Portanto é também maior do que a Igreja.

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