EDITORIAL » As duas faces da migração escolar

Publicação: 06/07/2017 03:00

Não é de hoje que alunos de escolas privadas estão migrando para escolas públicas. Mas os números recentemente divulgados de São Paulo impressionam: mais de 220 mil estudantes matriculados na rede pública de ensino, este ano, vieram da rede particular. O total é 25,8% maior do que o registrado em 2012.  As causas principais do fenômeno são a crise econômica e a melhoria do nível de ensino e da estrutura das escolas dos estados, fortalecidas por outros incentivos, como o sistema de cotas para ingresso nas universidades.

Mas há peculiaridades nos estados. Em Pernambuco, por exemplo, há fatores de atração como o programa Ganhe o Mundo (que viabiliza o intercâmbio internacional de alunos do ensino médio), gratuidade no transporte público e aulas de robótica. A tendência aqui é de que a cada ano cerca de 15 mil estudantes das escolas privadas transfiram-se para instituições públicas — o que representa 30,6% do universo de novatos que ingressam na rede.

No caso de São Paulo, segundo matéria do El País Brasil, há uma tendência que chama atenção: alguns pais estão transferindo os filhos para que eles saiam da “bolha social” em que vivem e tenham mais contato “com a diversidade” — ou seja, contato com pessoas de origem econômica e social diferente. É impossível quantificar o percentual dos que se incluem nessa situação, mas é plausível supor que se trata de uma parcela minoritária no conjunto, embora relevante em virtude de sua motivação.

De acordo com levantamento da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), as escolas particulares perderam entre 10% e 12% das matrículas no ano passado, informa reportagem do Diario de Pernambuco (“Da escola privada para a pública, sem arrependimento”, 20/6/16). O estudo constatou que a maioria dos que saíram pertencia às classes C e D, cujas famílias haviam tido aumento de renda nos anos anteriores e colocado os filhos nos educandários pagos. Com a crise, estão fazendo o caminho de volta.

É a maioria, mas não são todos. Da mesma forma que, em São Paulo, não são todos os que têm migrado pela motivação dos pais de “buscar contato com a diversidade”. O fato é que o fenômeno da migração escolar se verifica no país inteiro. Por um lado, ele revela uma face perversa de nosso desenvolvimento: a instabilidade, que torna a ascensão social do nosso povo uma trajetória de espasmos. Por outro lado, no entanto, lança luz sobre uma face positiva da nossa evolução, nos últimos anos: o de que a escola pública não é mais o patinho feio da educação e já é considerada por parcela dos brasileiros como uma alternativa positiva para seus filhos.

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