EDITORIAL » O bebê como metáfora

Publicação: 04/07/2017 03:00

O dicionário define metáfora como figura de linguagem que atribui a vocábulo ou a expressão sentido diferente do usual. Em outras palavras: o que significava uma coisa passa a significar outra. Para tornar claro o conceito, valem dois exemplos. Um deles: chamar de raposa uma pessoa astuta. Outro: designar a juventude como a primavera da vida.

Tragédia ocorrida no Rio pode ser entendida como metáfora da realidade brasileira. Mulher grávida, prestes a dar à luz, vai fazer compras num supermercado. Uma bala perdida lhe atinge a barriga. No parto, feito às pressas, descobre-se que o feto foi atingido no ventre da mãe e teve comprometida a integridade física. Nasceu paraplégico.

Trata-se de violência cuja leitura ultrapassa o universo particular e ganha dimensão nacional. O recém-nascido é metáfora do futuro. Que porvir aguarda as crianças e os jovens deste país? Se medidas eficazes não forem tomadas, manter-se-á aberta a chaga dolorosa que se agrava com a rapidez do projetil disparado de arma de fogo.

O Mapa da Violência 2017 traz números assustadores. Segundo o estudo, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum de Segurança Pública — o Brasil registrou em três semanas de 2015 mais homicídios que em todos os atentados terroristas no mundo em 2017. Mais: as maiores vítimas é a população masculina jovem de baixa renda. Entre elas, sobressaem os negros — 78,9%, que têm 10% mais chance de perder a vida prematuramente que brancos, pardos ou índios.

Tornou-se lugar-comum afirmar que se mata mais no Brasil que em países em guerra. Apesar de tantas vezes repetido, o fato deixou de causar indignação e protestos. Aceita-se a matança com a naturalidade de quem vê ao dia suceder a noite, a mudança das fases da Lua, o calendário assinalar o Natal em 25 de dezembro ou a Páscoa depois da folia carnavalesca. As consequências não podem ser ignoradas.

A violência cobra preço alto ao Brasil. Há os danos psicológicos. O medo força afastamento do trabalho e das obrigações corriqueiras. Também imobiliza. Segura em casa pessoas que poderiam movimentar restaurantes, cinemas, teatros. Comércio que mantinha as portas abertas 24 horas por dia fecha cedo, amedrontado com a insegurança que não respeita bairro nem horário.

Prejuízos materiais devem, também, ser lembrados. Com a matança, o país enterra mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB), a maior parte dos quais resultado da perda de capital humano. São homens e mulheres que, prematuramente, deixam de produzir e consumir. Até quando? O tiro que acertou o bebê na barriga da mãe deve acordar a população para o absurdo de aceitar a violência com naturalidade. Ele deixa recado claro. O Brasil tem de se indignar. Não à violência.

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