Veja bem, está lembrado da palavra morrer? Morreu

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 03/07/2017 03:00

Começo errado apenas para atender ao tamanho do título: o “Veja bem” é excessivo. Deve ser dispensado. Tudo o que sobra na frase precisa ser cortado. Flaubert dizia que a palavra que aparece muito na frase deve morrer. E é sobre a morte que quero falar. Não sobre o ato de morrer. Mas sobre a palavra. Morta, coitada, morta.

Há palavras e expressões que surgem - ou nascem – e desaparecem rapidamente. Muitas vezes por causa da moda. É incrível, mas as pessoas, mesmo as mais corretas não passam sem ela. Repetem e repetem por imitação ou porque é moda. Simples assim: é moda. E a moda agora é matar a morte. Pelo menos na linguagem dos comunicadores. A palavra morte, por exemplo, morreu.

Jornalistas, médicos e legistas já não dizem “a vítima morreu.” Dizem com inusitada descoberta: “A vítima entrou em óbito.” E vale para tudo, em qualquer situação. Dizem até com pompa e glória: “A vítima acabou entrando em óbito.” A velha mania de complicar e entortar a frase: “A vítima acabou entrando em óbito”.

A frase longa, com dois verbos e ainda um gerúndio antipático – acabou entrando – para dizer uma coisa simples e direta: “morreu.” Porque está aí também uma lição de como escrever bem: simplifique a palavra e a frase, não entorte o pescoço do leitor, diga o que tem de dizer e pronto. Sem escândalo. Sem curvas.

Mas existe outra expressão, que se pretende educada, gentil, e que não presta: “A vítima se foi”. E por que não morreu? Dita de outra maneira cria um som esquisito e diferente: “A vítima foi-se.” Foice? Horrível. Em literatura, se o autor quer, de propósito, criar uma imagem da ceifadora, que é a própria morte, ainda bem. Do contrário, é bobagem. Aliás, em literatura, tudo pode e nada pode. Depende de quem faz.

Em literatura, sobretudo na prosa de ficção, muita coisa pode ser feita, mesmo quando contraria a norma. Na minha Teoria da Pulsação Narrativa, por exemplo, o ritmo pode ser alterado até de uma frase para outra, porque cada personagem tem o seu próprio ritmo e sua própria linguagem.

Sempre imagino o texto literário como uma partitura, uma sinfonia ou uma ópera. Até o mesmo personagem pode mudar de ritmo em várias ocasiões porque ninguém é igual o tempo todo. O pulso muda a cada momento. E isso tem que ser transformado em literatura. Sem esquecer nunca: escrever é uma arte. Mesmo para quem não quer ser artista.

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