Quem não quer chegar lá?

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

Publicação: 03/07/2017 03:00

Somos um povo emocionalmente imaturo. Aquele mito de que o Brasil seria o país do futuro parece ter deixado uma marca indelével em nosso inconsciente coletivo. Funcionamos como se todos quiséssemos ser jovens eternamente. Complexo de Peter Pan generalizado. O fenômeno agravou-se pelo efeito viagra. Pessoas maduras casando com as de outra geração, com os apetites sexuais sendo equilibrados artificialmente pelo ‘azulzinho’. A velhice é caricaturada quase como uma culpa de quem envelhece. Paradoxal, porque desde tempos imemoriais, os seres humanos sonham com o prolongamento da vida. Ou com a vida eterna depois da terrena, como prometem todas as religiões. Os egípcios chegavam a colocar suas múmias nos sarcófagos acompanhadas de objetos que os mortos necessitariam na outra vida. A ciência e a tecnologia evoluem na busca do prolongamento da vida. Nos hospitais, muitos pacientes conseguem estender uma sobrevida antes inimaginável. ‘Tá ficando difícil morrer’, já vi alguém exagerar no comentário. Se queremos a vida eterna, a não-morte, então por que menosprezar a velhice, esse efeito indeclinável da vida longa tão ansiada? Há que reconciliar o paradoxo, sob pena de permanecermos eternamente adolescentes emocionais. Vítimas, todos nós. Ou pelo menos os que tiverem a ventura de não morrer jovens como Castro Alves e os poetas do ‘Mal do Século’.

O fato é que o aumento das expectativas de vida precisa ser acompanhado da revisão de paradigmas. Para que possam viver melhor os 810 milhões de idosos (11,5% da população global), entre os quais os 23,5 milhões de brasileiros com mais de 60 anos (que serão 66,5 milhões em 2050). Revisão de paradigmas que deve se dar em três esferas. Primeiro, nas políticas de estado. O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741, de 1º/10/2003) trouxe muitos avanços que, todavia, precisam ter mais efetividade. Para isso, é preciso fortalecer iniciativas como a da Comissão Interministerial do Compromisso Nacional para o Envelhecimento Ativo, criada pelo Decreto nº 8.114, de 30/9/2013, um colegiado que tem como objetivo mapear e planejar as políticas públicas voltadas ao atendimento da população idosa. Depois, nas atitudes sociais e valores em relação às pessoas maduras. Como testemunham os povos orientais, os jovens têm muito a aprender com a experiência e os conhecimentos dos idosos. E isso só ocorrerá se superarmos o culto ao (passageiro) estado de juventude, inclusive nos aspectos ligados à aparência. E, finalmente, na própria atitude dos que envelhecem. São os próprios idosos que precisam assumir atitudes proativas, combatendo os preconceitos, assumindo compromissos e preparando seus próprios destinos com antecipação nas áreas profissional e sócio-afetiva, inclusive com educação financeira e planejamento patrimonial e previdenciário. Para que, assim, possam ter um envelhecimento ativo, com dignidade, e vida mais longa e saudável.

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