Mas o que é a língua?

Fanuel Melo Paes Barreto
Professor de Língua Portuguesa e Linguística/Unicap

Publicação: 01/07/2017 03:00

É significativo que, apesar dos cem anos que separam seus pronunciamentos, dois dentre os mais importantes representantes da ciência linguística, Ferdinand de Saussure (1857-1913) e Noam Chomsky (n. 1928), tenham se debruçado sobre uma questão que, pelo seu caráter fundamental, se suporia já respondida, levando-se em conta os 2.500 anos de estudos da linguagem.

Saussure, em seu livro de publicação póstuma, Cours de linguistique générale (1916), sugere que, face à gama multiforme de fatos que constitui nossa experiência da linguagem e que se distribui pelos domínios físico, fisiológico e psíquico, envolvendo tanto o plano individual quanto o social, somente a língua parece fornecer um ponto de apoio satisfatório para organizar essa experiência. “Mas”, pergunta ele, “o que é a língua?”. Já Chomsky, em um de seus livros mais recentes, What kind of creatures are we? (2016), reitera sua posição de que, somente quando se tem uma resposta para a pergunta sobre a natureza da língua, é possível ir adiante e investigar seriamente questões sobre a linguagem, como aquisição e uso, mudança e diversidade; indo além, ele sustenta que a solução dessa questão básica tem ainda consequências para outra, mais profunda, sobre “que tipo de criaturas nós somos”.

As respostas oferecidas pelos dois linguistas à pergunta assim colocada têm pontos em comum e diferenças importantes. Para Saussure, a língua consiste em um sistema de signos (vale dizer, palavras) estocados na mente dos membros de uma comunidade sob a forma de imagens acústicas associadas a conceitos e deve sua existência a uma espécie de contrato vigente na comunidade. Para Chomsky, a língua é como um órgão mental com a propriedade básica de gerar uma infinidade de expressões estruturadas que se prestam à interpretação conceitual e à exteriorização sensória, sendo o desenho geral desse órgão determinado pela biologia da espécie humana.

Naturalmente temos aqui apenas um esboço das respostas, que, mesmo em sua inteireza, são parciais e provisórias. Um ponto relevante em comum às duas é o de que, para ambos os linguistas, a língua é um objeto real, que pode ser estudado separadamente, sem se considerarem os usos que dele se fazem, por exemplo, na comunicação. Sobretudo esse caráter autônomo da língua opõe Saussure e Chomsky, e com eles os chamados estruturalistas e gerativistas, aos funcionalistas e interacionistas, para os quais não é possível abstrair a língua e suas propriedades das funções por ela desempenhadas na interação comunicativa, a qual constituiria a base mesma para a explicação dessas propriedades e de fenômenos como a aquisição, a variação e a mudança linguística.

Algumas vezes, confrontado com a tarefa de introduzir os alunos nos estudos da linguagem, tenho recorrido à velha parábola hindu sobre os cegos que, instigados a descrever um elefante com base apenas no que percebiam ao apalpá-lo, produziam imagens bem diversas, conforme lhes cabia para contato a tromba, uma orelha, uma pata, o abdome, a cauda ou uma presa do animal. Ao discutirem suas impressões, não chegavam a um acordo sobre como acomodar descrições tão diversas e, para sua cegueira, irreconciliáveis. Sem querer abusar da comparação, digo aos alunos que algo semelhante pode acontecer com quem se propõe a estudar um fenômeno tão complexo como a linguagem. Seria a língua o princípio ordenador para esse estudo? Devemos conceder a ela a precedência entre os fatos da linguagem? Mas... o que é mesmo a língua?

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