Fontes de lembranças

Marly Mota
Escritora

Publicação: 01/07/2017 03:00

De quando pequena, com oito anos em pose de retrato, segurando uma flor, fiquei no desenho caricato que me fez o compositor e pintor, o bon vivant Lourenço da Fonseca Barbosa, meu primo Capiba. Desprezei o desenho por me achar gorda e feia, mas minha mãe, Maria Digna, guardou-o com carinho.

Fazendo parte desse aconchego, Abelardo Barbosa de Medeiros, o famoso Chacrinha, nascido 1916 na casa hospitaleira da querida mãe Júlia, nossa avó, na cidade de Surubim. Fazendo parte dessa família harmoniosa à querida Zezita Barbosa, viúva de Capiba, muito atenta à direção da Casa de Cultura Capiba na mesma cidade. Ele e Abelardo tocaram na Jazz Band Acadêmica do Recife. Capiba musicou o poema Elegia Nº5 e me deu de presente com afetuosa dedicatória: À querida prima Marly, com a minha amizade ofereço este disco que contém as Elegias do seu querido e eterno Mauro. Assinou longamente o seu nome Capiba, em 30 de setembro de1985. Suas composições de frevos encantaram a minha juventude e várias gerações nos carnavais do Recife.

No acolhedor terraço da nossa casa à Rua Bento de Loyola, integravam-se a rotina da casa a graúna Rita, o galo de campina Alcione e o canário seu Gouveia, pássaros amados por Mauro Mota, mencionados no seu livro Os bichos na fala da gente.  Entre desenhos e pinturas expostos nas paredes estava o quadro Briga de galo (1966), dedicado ao meu pai, que, quando menino, gostava de galos de brigas, levando-os aos terreiros da sua casa grande do Engenho Independência. Nesse terraço, caminho de muitos amigos, em um dos tantos encontros, surgiu o nome de Bento de Loyola, dado à nossa rua. Quem teria sido Bento de Loyola? O assunto ganhou dimensão entre os presentes. Estavam reunidos Waldemar Valente, Laurênio Lima, Renato Carneiro Campos, Arnoldo Jambo, Vanildo Bezerra Cavalcanti, Gladstone Vieira Belo, Alberto Cunha Melo, Jaci Bezerra e Marcos Accioly.

Entre os mais jovens, de estreita convivência com os primos, Eudes Mota e meus filhos, Eduardo Motta, com seu livro Horas de agora, e Maurício Motta, pintor e poeta, exibindo o quadro Damas do baralho. Unindo-se a eles, o amigo Plínio Palhano com a elogiada série de nus. À época meu compadre Marcos Vinícios Vilaça, secretário do Ministério da Cultura, convocou um grupo de renomados artistas de Pernambuco para integrarem a exposição Pernambucanos em Brasília, com belo catálogo que contou com um texto seu onde lembra Cícero Dias.

Certo dia, escutamos um bate palmas no portão. Uma jovem foi até nós, dizendo que havia ido buscar o quadro Briga de galo que tinha ganhado numa rifa. Eu a atendi estarrecida e li o bilhete que trazia nas mãos: “Rifa-se belo quadro Briga de galo, da pintora Marly Mota, pela Loteria Federal”. Logo soubemos que um primo querido de Mauro armou esse episódio. Um quadro é como um filho e continua ocupando o seu lugar. 

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.