EDITORIAL » Quando o policial muda de lado

Publicação: 01/07/2017 03:00

Domingos Fernandes Calabar foi um proprietário de terras alagoano que em 1632 resolveu mudar de lado: combatia ao lado dos portugueses e passou para o dos holandeses, que haviam invadido o Brasil. Seu conhecimento da região revelou-se fundamental nas batalhas, abrindo caminho para que o domínio dos invasores se estabelecesse no território colonial brasileiro. Acsuado de traidor pelas forças que resistiam aos holandeses, Calabar foi preso em1635 e condenado à morte na forca.

Isso é história. Cerca de quatro séculos depois, o nome dele foi escolhido para batizar a maior operação já realizada contra a corrupção policial no estado do Rio de Janeiro — aí saímos da história para entrar direto numa tragédia brasileira: aquela em que servidores do Estado pagos para combater o crime aliam-se a criminosos na violência praticada contra a população. Se considerássemos Calabar um “traidor”, seria o caso de dizer que estes policiais são também “traidores” da causa que juraram defender. Mas o nome da Operação Calabar não se deve a este pormenor; ela faz referência ao fato de que a ação só foi possível graças a um delator, que relatou à polícia a relação existente entre policiais e traficantes.

Para que se tenha uma ideia da magnitude da operação, deflagrada na última quinta-feira, basta ver que a Justiça expediu 96 mandados de prisão contra PMs e 70 contra traficantes. Quando um policial se alia a bandidos, está mudando de lado — deixando o lado da lei para ingressar no território do crime. Torna-se um criminoso de farda ou com distintivo. Por isso que, neste caso do estado do Rio de Janeiro, falamos em tragédia — não há outro nome a dar para uma relação tão promíscua de integrantes de uma corporação policial com o mundo do crime. Entre temeroso e cético, o brasileiro avalia se esta tragédia é exclusiva do Rio, ou pode repetir-se em outras regiões.

Segundo os responsáveis pela investigação, os alvos da operação tinham “organização hierárquica” e agiam divididos em grupos. Os PMs recebiam propinas para não combater o tráfico de drogas na área de atuação deles. São acusados dos crimes de organização criminosa e corrupção passiva. Já os traficantes vão responder por corrupção ativa e associação para o tráfico. Curioso que a descoberta da atuação desses grupos foi possível graças a  um mecanismo de outras operações policiais, sobre relações ilícitas entre políticos e empresários — a “delação premiada”. Neste caso foi de um intermediário das propinas dos traficantes para os PMs.

Acreditamos que os “maus policiais” são sempre uma minoria nas suas instituições. A maioria cumpre o seu dever, muitas vezes superando dificuldades que não chegam ao conhecimento da população. Mas as “laranjas podres”, como definiu um delegado do Rio ao referir-se àqueles que estavam sendo presos, estas precisam ser combatidas com rigor e vigilância por todos, principalmente por suas próprias corporações.

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