Escravidão mental

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 30/06/2017 03:00

“Ninguém além de nós mesmos pode libertar nossas mentes” é um verso que escuto da Canção de Redenção, entoada por Bob Marley. Incluí-a em minha playlist recentemente, apesar de lembrar-me muito dela do passado.

A escravidão mental é um tema tratado muitas vezes por Noam Chomsky em sua obra, onde ele afirma: “quando as pessoas quiseram ter liberdade suficiente para não serem escravizadas ou assassinadas ou oprimidas, desenvolveram-se naturalmente novos modos de controle que tentaram impor formas de escravidão mental, para que elas aceitassem um quadro de doutrinação, sem fazer perguntas. Quando se consegue fazer as pessoas caírem na armadilha de nem notar doutrinas fundamentais – questioná-las, então, nem se diga –, elas já terão sido escravizadas.”

Chomsky se refere a um sistema de propaganda que não revela seus princípios ou intenções e que atua, precipuamente, através da televisão que nos impõe, por meio da repetição, certos limites fixos de pensamento. Para ele, a televisão e seu sistema de propaganda propõem um quadro de referência e as pessoas apenas aceitam-no, muitas vezes sequer sem percebê-lo, outras sem refletir sobre ele ou questioná-lo.

Libertar nossas mentes da escravidão exige um esforço de pensamento, reflexão, contextualização e investigação. É um trabalho duro e permanente. Costumo dizer aos meus alunos que o que mais espero deles é que sejam capazes de formular perguntas. Costumo dizer que espero deles muito mais perguntas de que respostas, porque o esforço de reflexão se desenvolve através de um trabalho de questionamento e de formulação de novas perguntas.

É isso que faz o conhecimento ser inesgotável: as perguntas e o dissenso, nunca as respostas e o pensamento único. As respostas existem para serem repensadas e reanalisadas, através de novos ciclos de perguntas e de questionamentos.

E o nosso grande aliado para libertar nossas mentes é o livro. E ler um livro é pensar sobre ele. É marcar os trechos que mais chamaram nossa atenção, voltar a essas partes, questionar-nos sobre as associações que fazemos a partir da leitura, identificar como podemos inserir as ideias do livro em nosso contexto de realidade. Ou seja, ler um livro é um exercício intelectual que estimula o pensamento, os questionamentos e a imaginação.

Preocupo-me com o futuro do livro numa cultura dominada pela imagem. Meu filho assiste a vários filmes e séries, vê diversos vídeos no YouTube e lê poucos livros, se comparado com o que eu lia quando tinha a sua idade. É certo que sou contemporânea dos vídeo-cassetes e que a internet no Brasil iniciou-se em 1988, quando eu tinha a idade dele, mas temo que essa guinada tão radical venha a rebaixar a cultura intelectual.

Porque ter cultura intelectual não significa ter informação e referências. Ter cultura intelectual significa ter capacidade de reflexão e pensamento. Meu filho pode me relatar sobre o que viu no filme, na série ou no canal de youtube a que assiste, mas não acredito que pense sobre aquilo que vê na TV.

De meu lado, posso assegurar que as melhores conversas que tive foram com algumas dezenas de bons livros que li. Foram essas conversas que tive com os livros que li, que me tornaram capaz de formular as melhores perguntas. E é justamente conversando com os bons livros, que impedimos que os nossos pensamentos sejam controlados.

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