EDITORIAL » Crise se agrava na Venezuela

Publicação: 30/06/2017 03:00

Desde 1º de abril, a crise política e socioeconômica da Venezuela se agravou com os protestos diários de milhares de pessoas nas ruas da capital, Caracas. Organizadas pela oposição ao governo de Nicolás Maduro, as manifestações têm sido reprimidas com muita violência pelas forças de segurança. Nesse período, mais de 3.300 pessoas foram presas e 79 mortas nos confrontos com os policiais. O país derrete. Mas Maduro resiste: “Jamais nos renderemos”. Em seguida, avisou que está disposto a comandar investida armada em defesa do governo.

A declaração de Maduro ocorreu na terça-feira, no mesmo dia em que o capitão Óscar Pérez, ex-integrante da Polícia Judicial, furtou um helicóptero, lançou quatro granadas sobre o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e disparou 15 tiros contra o Ministério do Interior e de Justiça. Na aeronave, ele ostentava uma faixa destacando o artigo 350 da Constituição, que respalda a desobediência civil quando as ações do governo comprometem os direitos humanos e as garantias democráticas.

O desgaste e a queda de popularidade não incomodam Nicolás Maduro. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUD), que congrega os chavistas, dá sinais de divisão. Há rumores de que o apoio incondicional dos militares ao Executivo não estaria tão sólido como no passado. Mas, em vez de realizar um plebiscito, em que a população julgaria o governo, Maduro convocou, para 30 de julho, a eleição de uma assembleia constituinte. A oposição rejeita a proposta. Entende que não passa de mais um golpe do chavista para se manter no poder.

Com o fim da era petista, em 2016, as relações Brasil-Venezuela mudaram. Maduro não reconhece a gestão de Michel Temer, o que impede o governo brasileiro de madiar um entendimento que ponha fim ao conflito entre chavistas e oposição. As relações comerciais entre os dois país derreteram.

Na última semana, o Brasil se negou a vender gás lacrimogêneo ao governo venezuelano. Sem uma indústria forte, a queda do preço internacional do petróleo estagnou a economia do vizinho. As políticas sociais, sustentadas pelo ouro negro, minguaram.

O Brasil é a opção de milhares de venezuelanos que fogem dos conflitos. Em 2015, foram apresentados 829 pedidos de abrigo. Neste ano, as solicitações já somam 3.971, segundo o Ministério da Justiça. Os refugiados entram por Roraima e são recepcionados pelo Centro de Referência do Imigrante em Boa Vista. Embora não divulgue detalhes, o Ministério da Defesa assegura que tem planos para acolher os refugiados.

Dificilmente, Maduro terá um gesto de grandeza para pôr fim ao colapso social e econômico que enfrenta o país. As principais vítimas do conflito são os cidadãos. A crise impõe que as forças políticas da América Latina se unam em defesa do povo venezuelano e criem ambiente propício ao restabelecimento da paz naquele país. O ressurgimento de uma ditadura terá consequências imprevisíveis à estabilidade democrática da região, mais ainda para os cidadãos venezuelanos, hoje, obrigados a buscar no lixo o alimento de cada dia.

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