Uma ilha esquizofrênica

Manoel Bione
Médico psiquiatra e jornalista

Publicação: 28/06/2017 03:00

Em artigo anterior, publicado em meu blog, descrevi minha via crucis de sair do Brasil até adentrar o tapete verde do território cubano. Por falar em “tapete verde”, já se vê lá de cima, no voo, que Cuba é uma ilha fértil e verdejante. Povoada de grandes parques e reservas florestais. Amplas estradas e avenidas cortam suas principais cidades, principalmente Havana, Matanzas e Varadero.

Mas, vamos falar do estranho título deste artigo. Você com certeza já presenciou alguns malucos que andam conversando sozinhos, como se estivessem a falar com outra pessoa. A psiquiatria os batizou de “esquizofrênicos”, palavra que deriva dos termos gregos “esquizo” (“dividido”, “cindido”) e “frenos” (“nervo”). Ou seja, esses portadores de esquizofrenia possuem um transtorno de identidade que nem as filosofias, nem as religiões, nem a medicina jamais conseguiram explicar. É como se eles estivessem divididos em dois.

Isto posto, vamos a Cuba. No pouco tempo em que passei no país, senti esse clima de esquizofrenia, sem saber direito como funciona sua política. A começar pelo fato de que a ilha possui duas moedas. Uma se chama Peso Cubano, conhecido pela sigla CUP. A outra chama-se Peso Cubano Conversível, também chamado de CUC pelos nativos. Pois bem, essas duas moedas caminham paralelas e possuem valores diferentes. Um CUC, por exemplo, vale cerca de 24 CUPS.

Para não dar um nó na sua cabeça, como quase deu na minha, vamos detalhar a história dos dois Pesos e duas medidas. O CUC circula quase sempre entre os turistas que lotam os hotéis e imensos resorts da ilha. Já o CUP é usado para o pagamento de funcionários - privados e públicos. Ou seja, o governo fica com o filé (o CUC, que vale aproximadamente um Euro) e joga o osso para o povaréu. Note-se que quase todos os estabelecimentos de turismo pertencem ao governo, totalmente ou em parceria com grupos privados, principalmente europeus.

Outro sintoma da tal esquizofrenia cubana. Os visitantes raramente têm contato com os nativos, exceto quando usam seus serviços. Os resorts ficam na afastada cidade de Varadero. Eles ocupam imensas áreas. Para se ter ideia fiquei hospedado em um hotel que possui mais de mil e trezentos apartamentos, sete restaurantes, vários bares e piscinas. Quando você chega, já recebe no check-in um mapa para se orientar em seu interior. Da recepção até a praia - naturalmente, privativa do hotel - percorre-se uma distância de mais de um quilômetro. O deslocamento é feito por meio de carrinhos elétricos que passam de cinco em cinco minutos pelos pontos onde você se encontra.

Os empregados, por sua vez, residem em cidades distantes e pobres como Matanzas, a cerca de 100 quilômetros de Varadero. Como recebem em CUP, sorriem sorrisos de manequim para os hóspedes na esperança de receber alguns CUCs de gorjeta – que eles chamam de “propina”.      

O pouco acesso que temos à população são os contatos eventuais com os taxistas ou garçons. Apesar de sua simpatia natural, quando tocamos em política, muitos criticam o governo, principalmente os pobres salários que recebem e a cesta básica mensal a que têm direito, mas elogiam a educação para seus filhos e o sistema de saúde, público e universal.

Não adianta puxar muito papo. Quando perguntados se com a distensão introduzida por Obama melhorou alguma coisa em suas vidas, uns emudecem desconfiando de nossa curiosidade, alguns mais afoitos desabafam: “Deve ter melhorado para ‘eles’!, afirmam a apontar para cima. E bote esquizofrenia nisto!

(Depois eu conto mais.)

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.