A crise existe?

João Paulo S. de Siqueira
Advogado, professor, mestre em consumo e desenvolvimento social

Publicação: 27/06/2017 03:00

A crise é o termo da moda na atualidade, é tema onipresente em quase todos os debates e discussões, em qualquer âmbito. Vai além de ser somente política e apresenta-se como uma crise plural e multifacetada: institucional, axiológica, intelectual e sobretudo econômica.

Aspecto desse fenômeno que precisa ser analisado com cautela é a abrangência dessa tão alardeada crise que, definitivamente, não é generalizada, mas sim setorizada e que atinge somente parte da população, pois só alcança determinadas classes que sempre estiveram em crise.

A doutrina pós-marxista defende que o capitalismo, em sua trajetória histórica, sofre de crises cíclicas que atingem apenas uma parcela da população, e é esse panorama que vivenciamos no Brasil, e o entendimento dessa conjuntura é simples: num mundo dinâmico, dialético e voraz, de maneira ampla e geral, independentemente de qual seja a postura cambial, econômica ou administrativa escolhida, os ricos continuarão numa posição estável, os pobres, lamentavelmente, permanecerão em situação precária, e será a classe média, em qualquer de suas estratificações, que representará o fiel da balança, que oscilará seu consumo e será rigorosamente atingida em seu padrão de vida e perspectivas de futuro.

Sejamos práticos e sinceros, não há crise para os ricos. O mercado de consumo dos bens de luxo cresce consistentemente, as primeiras classes e as classes executivas dos voos internacionais estão lotadas. Bons restaurantes, hotéis, casas de espetáculos sempre estão cheios. Produtos, bens, experiências e excentricidades voltadas ao público da classe A não dão conta da demanda de seus clientes.

Os políticos definitivamente desconhecem o significado de crise, pois, em todas as esferas, são beneficiados por altos salários, garantias, privilégios, auxílios e um batalhão de assessores e comissionados, e o mais grave, ainda estão insatisfeitos, visto que apresentam e aprovam leis que estabelecem e ampliam ainda mais suas regalias e auxílios. Triste, lamentável!

Por isso a política, em nosso país, virou profissão e existem inúmeros políticos de carreira, que além de gozarem de tantos privilégios ainda lutam para inserirem seus filhos no poder público, para que as próximas gerações da família continuem desfrutando das regalias, porque desemprego, para eles, é algo inexistente e impensável.

Então a crise não existe? Existe sim, mas não é recente e sim histórica e seletiva, só atinge, sufoca e massacra quem sempre esteve em crise: a classe média e a iludida classe C que pensou ter ascendido um degrau na pirâmide social. Essa enorme parcela da população, sim, conhece a crise, pois sempre foi vítima de juros bancários exploratórios, dívidas, ilusão de consumo consistente, sonhos não realizados, salários defasados, inflação destrutiva, falta de estrutura e dignidade nos serviços públicos, e o mais grave: desesperança no futuro.

Diante desse panorama, é fundamental entendermos que a crise existe, mas que não é um cenário novo, ao contrário, sempre existiu e alcança somente uma parcela da população. A única novidade é que o mantra de fé e patriotismo que vigorava e bradava que “o Brasil seria o país do futuro”, hoje se mostra uma falácia para muitos e muitos, mas que ainda continua sendo verdadeiro e válido para os que vivem num mar de fartura e regalias, os que nunca souberam o significado de crise.

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