A menina que roubava livros

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e Membro da Academia Perambucana de Letras

Publicação: 27/06/2017 03:00

O romance que alcançou o grande público através do cinema conta a história da menina Liesel, sobrevivente de um drama trágico passado na época do nazismo. Para salvar os dois filhos, a mãe, judia e perseguida, consegue encontrar quem cuide de Liesel e seu irmão, em troca de dinheiro. No trajeto até a cidade, o menino morre e Liesel vai enfrentar sozinha a tirana mãe adotiva. Mas o pai lhe ensina a ler. E na leitura ela se refugia, roubando livros, num momento em que a censura de Hitler fazia fogueiras com esses objetos subversivos. A história da menina Rivânia, embora passada em cenários diferentes, tem a ver com essa da pequena judia, objeto de filme. Em meio à dura realidade, Liesel busca palavras, esses pequenos objetos  que podem fazer sonhar,  que recriam mundos, único meio de fazer dela, de qualquer modo,  um personagem diferente da menina cercada pelo perigo, pelo medo. Há algumas semanas, os jornais contaram a história de Rivânia, pequena pernambucana  do interior. Quando as águas ameaçaram sua cidade, sua casa, alguns pertences da família, e que todos tentam salvar um pouco de vida, objetos, documentos certamente, pedem-lhe que salve o que puder carregar, algum brinquedo, alguma boneca, um vestidinho. E ela salva o que considerava seu bem mais precioso, livros, os escolares,  algum tesouro de livrinho infantil talvez..

Quando na casa de tanta gente de posses rareiam livros, Rivânia é um exemplo e um consolo. E nos perguntamos: em situação semelhante, o que salvaríamos, que coisas importam mais em nossas vidas? Documentos, por certo, algumas fotos, certidões, diplomas, que contam nossas histórias. Mas... livros? E quais? Quanto a mim (Deus o livre como dizia minha irmã velhinha ante qualquer perigo), eu sei: o exemplar de Biblia que me deram quando fiz quinze anos. O velho hinário  publicado em Portugal no começo do século 20, com músicas que minha mãe tocava na igreja  em Garanhuns, marcando com bela caligrafia “preparar este para quarta-feira” ou “substituir os 5 sustenidos por dois bemois”. E salvaria mais: todos os livros de Rilke e sua correspondência. O romance Niels Lyhne, de Peter Jacobsen, presente de meu amigo William, e a novela Morgen, do mesmo Jacobsen. Poesia até agora, de Drummond, autografado por ele. Aí, vamos esquecer tais possibilidades e lembrar a pequena Rivânia.

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