EDITORIAL » Está vindo aí 'João, o trabalhador'?

Publicação: 18/05/2017 03:00

O Museu de História Natural de Nova York é um daqueles lugares que que qualquer guia do turismo mundial define como “imperdível”.  Em seus cinco andares lá estão, entre outras atrações, o famoso esqueleto do Tiranossauro Rex, no 4º andar, e a réplica gigante de uma baleia, no primeiro andar.  Apesar da riqueza do seu acervo  e da imponência do ambiente, o Museu de História Natural não é, digamos assim, o lugar mais apropriado para um político fazer discurso de candidato à Presidência da República — ainda mais se este político for de outro país,  no caso o Brasil.

Mas aconteceu — e o fato, embora inusitado, soma-se a outros fora do padrão que nos últimos tempos têm feito parte da política brasileira. O autor do discurso foi o prefeito de São Paulo, João Doria, que recebeu o prêmio “Personalidade do Ano”, promovido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. O evento aconteceu na noite de anteontem, no Museu de História Natural, com a participação de cerca de mil convidados.

“Eu vou continuar a ser o João trabalhador. Eu vou continuar a ser uma pessoa que vai trabalhar e que vai se dedicar exatamente de forma oposta àquilo que Luiz Inácio Lula da Silva e seus asseclas nunca fizeram nos últimos anos no Brasil: trabalhar, trabalhar, trabalhar”, disse Doria, na parte do pronunciamento mais aplaudida pelos presentes, segundo matéria de ontem da Agência Estado.  Há que se notar duas coisas aí: primeira, a imagem retórica do “João trabalhador”, uma boa sacada de marketing, e o ataque ao rival Lula, buscando polarização com aquele que por enquanto aparece em primeiro lugar nas pesquisas.

Em outro trecho, dirigindo-se à plateia, afirmou: “Vocês não podem se calar. Essa maioria, se silenciosa ficar, a minoria ruidosa vai ganhar. E não pode. Não pode. Porque ninguém quer para os seus filhos e para os seus netos aquele mundo que estava previsto até um ano atrás”.  A matéria da Agência Estado diz que “em nenhum momento Doria fez referência explícita à disputa presidencial ou à sua potencial candidatura, mas toda a simbologia do evento apontava nessa direção”. Antes do discurso, houve a apresentação de um vídeo sobre sua vida, da infância até a vitória na eleição para prefeito de São Paulo, ano passado. O vídeo encerra com a imagem da bandeira do Brasil e aquela música que ficou célebre como tema das vitórias de Ayrton Senna.

O PSDB ainda não escolheu seu candidato. O primeiro na fila é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin — a propósito, o padrinho político de Doria, responsável por bancar a candidatura dele à prefeitura.  O seu afilhado, porém, em Nova York e sob a companhia de um esqueleto de dinossauro, da réplica de uma baleia e de mil convidados, acaba de dar o mais inequívoco sinal de que foi mordido pela mosca azul, e também está no páreo.

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