Humor: remédio para as dores

Neuma Costa - Professora aposentada do IFPE

Publicação: 17/05/2017 03:00

Todos nós já observamos o crescimento do comércio farmacêutico, sem dúvida, um negócio que tem auferido bons resultados. Fecha uma grande galeria e, de repente, abre uma Pague Menos, ou Drogasil, ou Farmácia Popular, Drogaria Saúde, Drogaria São Paulo etc. Óbvio que esse crescimento é proporcional ao número crescente de hipocondríacos. Haja remédio para curar tantos males!!!

Essa demanda poderia ser canalizada para outra fonte, quem sabe, com sucesso mais garantido, e melhor, sem os efeitos colaterais de conhecidas drogas. Qual é? Pergunte ao poeta Drummond: (...) palavras duras, em voz mansa, te golpeiam / nunca, nunca cicatrizam / Mas, e o humour? (...) Manuel Bandeira repete o vaticínio no poema Pneumatórax: O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o direito infiltrado. / Então, doutor, não é possível tentar o pneumatórax? / Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Não só os grandes poetas, mas também os pesquisadores, sobretudo na área de psiquiatria, reconhecem no HUMOR uma saída para achaques e distúrbios ? o brasileiro bem que é mestre nessa “ciência”. O fazer rir, no Brasil, é palco disputado pelos turistas, tanto quanto o estereótipo espalhado sobre o povo português. A propósito dessa última referência, lembrei um desastre de trem em Portugal. Dizem que morreram 100 pessoas: 50 no acidente e 50 na reconstituição.

Existe um professor de Fonologia, na UFPE, conhecido pela prolixidade, por exemplo, para explicar o conceito de “Alofonia”, apelava para detalhes históricos, remetendo-se ao descobrimento do Brasil, consequentemente, à influência linguística de outros povos. Foi quando um aluno interrompeu a verborreia e deu um exemplo: Professor, no Ceará não pronunciam V, e sim R. Em vez de “vamos”, dizem “ramo”. Isso é Alofonia? O professor confirma, e ele continua: vinha um viajante por uma rodovia e, ao perceber que um motorista à frente corria muito, imaginou que ele desconhecesse a presença de Radar. Então emparelhou-se com o parceiro de viagem e avisou: Radar! E o outro: Rai tu! Assim ficou mais fácil entender uma das categorias do campo fonológico.

Sem dúvida, o humor descontrai, diminui o estresse, além de facilitar o entendimento de princípios teóricos, complicados para quem não exercita a disciplina. Para explicar o significado de “Inferência” (ler o não-dito), o professor de Português recorre à famosa história das cadelinhas passeando na orla de Boa Viagem. Uma delas apressa o passo e grita: cooorre ...cooorre ..., que lá vem aquele cachorro do focim gelado.

Lá no sertão, vi alguém mudar o semblante preocupado para uma gargalhada. Um jovem veio do Rio de Janeiro passar a festa da padroeira ? Senhora Sant’Anna ? com os primos, numa cidade do interior de Pernambuco. Arranjou uma namorada, tudo bem, mas estava preocupado, pois a moça pedia que ele avançasse nos carinhos. Então, ele assim desabafou: Eu me controlo, mas ela é danadinha. Será que essa menina é virgem? E o primo: Meu fi, mande ela pular uma grota, se o fato não cair, eu me dane. Reconhecemos aí uma figura de linguagem chamada “Hipérbole” (exagero de uma ideia).

Para finalizar, voltemos à aula de Português, para trabalhar a categoria denominada “Ambiguidade”. O fato acontece num ponto de ônibus, onde uma moça tenta acalmar um bebê. O sol muito quente, o suor descendo, o bebê nos braços pra lá e pra cá. O choro insistente da criança sensibiliza um cidadão ao lado. Ele tenta ajudar: - Quer me dar o bichinho? E ela: - Querer eu quero, mas quem segura o menino? O problema é a diversidade de sentido ? Polissemia. Em vez de ficar chorando pelos cantos, apele para o cômico. Você sabe qual é o melhor chá para calvície? Só pode ser chapéu. Tire a ruga da testa e do coração. Desapegue. E o humour?

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