O turismo e a sociedade pós-industrial

Roberto Pereira - Ex-secretário de Educação e Cultura de Pernambuco

Publicação: 17/05/2017 03:00

Antes, a era agrícola, o poder pela terra. Depois, a industrial, a prevalência pelo capital. Agora, a era do conhecimento, onde o bem intelectual, “valor mais alta que se alevanta”, é quem assume o poder e a diferenciação, a supremacia e a força.

Nesse contexto, o turismo deixa de ser somente um sistema de variáveis sócio-econômicas para ser um dos vetores de transformação do mundo pós-industrial, promovendo, ao lado dos avanços tecnológicos, um outro modelo à nova ordem internacional, tendo, assim, um papel importante, de influência e de fomento, em todo o inevitável processo de globalização.

Este novo período histórico, por suas inquietações e expectativas humanas, já se auspicia como de estímulo à diversão, ao lazer e ao entretenimento, a ponto de consagrar-se, segundo muitos dos sociólogos e antropólogos, como da “civilização do ócio”, da “civilização do lazer” e, por extensão, do turismo, como apregoara, ainda em meados do século passado, Jofre Dumazedier.

Neste afã, o homem, na medida do possível, investe nos seus cometimentos espirituais, sendo o ato de viajar, pelo fascínio em descobrir novas paragens e outras culturas, o seu devaneio maior. Nasce, assim, o admirável homem novo, o “Homo turisticus”, o também chamado “Homem-férias”, quase insaciável em colocar o saber e a vivência à disposição do prazer em afivelar as malas e sair por aí, andando o seu chão-pátrio ou as estradas, os mares e os céus de outros países.

Turismo interno ou internacional, individual ou de massa, ora movido a cultura, ora a religiosidade, ora pelo (saudável) espírito de aventura, ora em nome dos esportes. Ora, até, por motivo especial de saúde, que impõe tratamentos médicos que nem sempre inibem os passeios nos arredores de um hospital, se num centro mais adiantado, ou de estâncias hidrominerais, quando não em cidades reconhecidas como de estação de cura pelas excepcionais qualidades terapêuticas.

Vale recordar, nesse diapasão, as palavras do Dr. Roberto Runcil, Arcebispo de Cantuária,  quando, em 1988, assegurou: “Na idade Média as pessoas eram turistas devido a sua religião, ao passo que hoje elas são turistas porque o turismo é a sua religião”

Sim, viajar começa a ser uma conduta de vida. Mais do que mudar de ares, o lazer é um imperativo à satisfação humana. Aliás, tão importante que o homem já se reserva aos descansos do fim do dia, do fim de semana, do fim do ano (férias) e do fim da vida (aposentadoria), esta fase no esplendor da chamada boa idade, quando os divertimentos ganham espaço e vez.

Segundo José Vicente de Andrade, à página 62 do seu livro “Turismo – Fundamentos e Dimensões”, o chamado turismo de férias nasceu de fundamentos psicossociais, sendo filho legítimo da Revolução Industrial e fruto da síntese trabalho/repouso.

Gostei, quando em 1995, escutei de Lucrécia Ferrara, professora da Universidade de São Paulo,  falando, no Congresso Internacional de Geografia e Planejamento do Turismo, o seguinte conceito: “O turista é um outro eu num eu-mesmo”. Com relação ao ser humano tem razão o filósofo quando disse: “o menor caminho entre você e você mesmo é a volta completa ao mundo”.

Viajar é preciso...Pensar o turista é necessário...Promover o turismo, em respeito ao usuário-cidadão, é trabalhar pelo desenvolvimento já que essa é a atividade econômica que mais cresce no cenário mundial, e mais posiciona, segundo conceitos pós-modernos, o homem no contexto do seu desenvolvimento emocional e intelectual.

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