Taís, Lázaro e outros

Luzilá Gonçalves Ferreira
Escritora

Publicação: 16/05/2017 03:00

O Recife aplaudiu, há dias, No topo da montanha, belo e polêmico texto teatral, da norte-americana Katori Hall. Um drama que a coragem desses dois excelentes atores globais ousou levar à cena, apostando na sensibilidade e inteligência de nosso público. Mesmo porque, como o lembrou Isabelle Barros, ao comentar o evento, “é  muito difícil ver um casal negro protagonizando um espetáculo no Brasil,” no espaço elitizado que é um palco de teatro. A peça é uma conversa entre Martin Luther King e uma camareira de hotel, à véspera do assassinato do grande líder de direitos humanos. Sentindo-se no topo de uma vida de lutas, Luther King discorre sobre sua existência, seus medos e sonhos, um dos quais se concretizaria anos depois, com a chegada de Obama ao poder. Taís e Lázaro apostaram nessa luta, e a gente não pode deixar de lembrar, ao longo de nossa história, alguns daqueles que sentiram na pele o preconceito racial que dizem não existir no Brasil. Como o notável Antonio Pedro de Figueiredo, mulato pobre de Igarassu, fundador de jornal de cunho socialista no anos 40 do século 19, que lutando por justiça e igualdade, teve o ódio de parte da elite (?) pernambucana,  ao falar de reforma agrária. E ganhou o apelido de Cousin Fusco, por ter traduzido uma obra de Victor Cousin, o socialista francês, pois como poderia um mulato pobre, embora jornalista, conhecer bastante o idioma pátrio e a língua francesa, para se meter a tradutor? Logo depois, temos Machado de Assis, registrado como pardo na certidão de nascimento e como branco na certidão de óbito, pois como um mulato poderia ser o maior escritor brasileiro: E logo depois, o genial Lima Barreto escreve um conto em que um morto chega a julgamento. São Pedro enumera suas qualidades: bondoso, generoso, honesto, caridoso. Onde o colocar? Mas se descobre: ele era negro. E o Diabo se alegra: Então vai pra o inferno.

Gente, vamos reler esse mulato genial que é o autor de Policarpo Quaresma.

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