O gerúndio no começo da frase literária conforme John Gardner

Raimundo Carrero *
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Publicação: 15/05/2017 09:00

Todos os estudiosos que se dedicam à análise técnica da prosa de ficção conhecem John Gardner, um dos fundadores da escrita criativa, cuja oba principal “A  Arte da Ficção” foi publicada no Brasil em 1997 pela Editora Civilização Brasileira. Nesta obra. À página 135 há uma grande lição dsobre o uso do gerúndio no começo da frase de uma cena de romance. Diz ele: “frases iniciadas com verbos no gerúndio são tão frequentes na literatura de má qualidade que o melhor será trata -la como culpada até prova em contrário. Frases como:” Levantando o pato os olhos devagarinho do seu bordado, Martha disse...” Levando o pato na mão esquerda, Henry...”Num estilo efetivamente ruim, tais frases introdutórias conduzem a alterações no foco temporal,ou ao ilogismo pura e simplesmente. O mau escritor nos diz por exemplo: “Demitindo o empregado  e pondo fogo no barracão, Eloise dirigiu-se à cidade.” ( A sentença dá a entender que a ação de demitir o empregado e incendiar sua casa é simultânea à ação deir de carro  para a cidade.)

Ou então: “Dando rapidamente  as costas à divisória, o capitão Figg falou lenta e cuidadosamente” ( ilógico, i. e., impossível) Mas mesmo que não ocorra falta de lógica ou impossibilidade material, o uso por demais frequente e inapropriado de frases desse tipo é condenável. Geralmente  ocorre pela incapacidade do escritor em saber como atenuar o horror que escreveu.

Ao tratar de outro exemplo, Gardner examina o gerúndio na segunda frase.

“Ela livrou-se da liga.” “Ela se voltou para John.” “Ela sorriu vendo seu constrangimento”. E, numa tentativa desesperada dev fugir à repetição, ao baque surdo dos sujeitos e dos verbos, muda a sentença para: “Ela livrou-se da liga. Voltando-se para John, sorriu do seu constrangimento”. OI objetivo, variar as sentenças, pode ser elogiável. Mas há outros meios. É possível evita r o martelar dos sujeitos: (1) apelando para os verbos reflexivos; (2) introduzindo qualificativos: “Ela livrou-se da liga, ou melhor – titrou-a de um golpe – uma liga puída, rosa-pálido, cujo elástico, cor de cinza, aparecia poe entre o franzido. De modo obsceno...etc...

Ou (3) encontrar adequado elemento subordinado, como: Quando ela se livrou da liga, voltou-se para Johm –  solução que elimina a repetição do som bsaixando a tônica do primeiro Ela.  Problemas de estilo são, habitualmente, sintomas de defeitos na personalidade ou na educação do escritor.

* Escritor e jornalista

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