A esperança que resta

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 13/05/2017 03:00

Nunca vejo televisão. No sábado, dia 6/5, atrás do jogo Náutico e Santa Cruz, surfava a minha (que é analógica!) quando caí acidentalmente na Globo News. Vi que o canal exibia um programa sobre o ex-governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro. Uma história de roubo e mentira sem tamanho, dentro da trajetória do político recheada de declarações próprias enaltecendo e assegurando sua probidade (como se ele fosse um Frei Damião ou Irmã Dulce). Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff aparecem no documentário como fiéis aliados do governador. Em comício da campanha de reeleição dele, em 2010, os dois são filmados em comício fazendo enormes elogios a Cabral. Já se sabe hoje, com certeza, porém, que a dimensão da desgraça do desvio de dinheiro público que aconteceu sob suas vistas ultrapassa qualquer nível de imaginação. É uma história que devemos todos, como muitas mais, à Operação Lava-Jato. De outra forma, na verdade, a impressão que o cidadão comum tem é de que a enorme prática de corrupção dos últimos tempos passaria incólume. E não é pouca coisa que se tem descoberto. As revelações que vêm a público oferecem um espetáculo de uso impróprio do dinheiro alheio que não figura nos cálculos de quem age sob o anteparo de princípios de decência e honestidade.

Vive-se hoje, no país, em consequência, uma situação de estado de choque. Todas as esperanças de progresso nacional, alimentadas depois do Plano Real, vão sendo substituídas pela vergonha, pelo sentimento de impotência diante do que aconteceu e, imagina-se, ainda possa estar acontecendo. A sociedade se questiona a respeito das escolhas que fez confiando em pessoas que mentiam de forma descomunal. Na campanha presidencial de 2014, por exemplo, desconstruiu-se a imagem da candidata Marina Silva com mentiras da pior categoria. E o que a ela se atribuía como maldades a ser postas em prática quando assumisse a presidência, o governo adotou em 2015 sem a menor cerimônia como remédio inevitável para conter o descalabro das finanças públicas. Mentia-se atribuindo os problemas do Brasil à crise internacional, não resolvida, que dura desde 2008, a mesma que foi considerada pelo então presidente Lula, nesciamente, como “marolinha”. Prometia-se o inalcançável, com apoio em propaganda edulcorada que oferecia o paraíso, omitindo completamente o grau de limitações a que o Brasil fora levado por anos de má gestão fiscal.

O grande mal-estar de agora, a sensação de vergonha diante da falsificação da verdade por nossos dirigentes, a tristeza em face do agravamento da pobreza e da falta de emprego, a decepção pela descoberta de safadezas cometidas por governantes que não souberam honrar a confiança neles depositada – tudo isso se agrava pela falta de perspectivas que se percebe à nossa frente. Atribui-se à recuperação da economia, a um melhor desempenho do PIB, ao crescimento econômico, que é o fetiche mais venerado do país, a capacidade de levar nossa sociedade a dias mais venturosos. Mas como, se houve tanta deterioração de valores, tanto desrespeito à verdade, tanto recurso aos meios mais condenáveis para enriquecimento pessoal?

O caso do governador Sérgio Cabral é chocante. Já na década de 1990, o ex-governador Marcelo Alencar, do Estado do Rio, questionava a exibição de riqueza que ele, então simples deputado estadual, fazia. Cabral usava de todo sortilégio para enganar Deus e o mundo. Foi bem-sucedido. Lula e Dilma não tiveram o desconfiômetro que Marcelo Alencar possuía. E é aqui que nossa vergonha fica mais robustecida, pela evidência cada vez maior de uma realidade de corrupção que ultrapassa todo cálculo. Se os delatores da Odebrecht mentem, certamente não poderiam mentir todos simultaneamente contando as mesmas histórias, com os mesmos personagens, as mesmas quantias envolvidas. O certo é que o país afunda, causa tristeza e vergonha, e espanta porque não se consegue imaginar o futuro que nos espera.

A sorte, no meu entender, é que ainda existe no Brasil um país silencioso que trabalha: um país de vergonha, um país que cultiva valores de solidariedade, de decência, de honestidade, de compromisso com o bem comum, de cumprimento da palavra dada. Um país esquecido, mas que age para que se possa viver fraternalmente. É o Brasil Profundo das populações sertanejas, por exemplo. O Brasil de cuja alma tão bem falava Ariano Suassuna. Em 1926, dele tratou Gilberto Freyre, no poema “O outro Brasil que vem aí”, que assim começa: “Eu ouço as vozes/ eu vejo as cores/ eu sinto os passos/ de outro Brasil que vem aí/ mais tropical/ mais fraternal/ mais brasileiro.” O final do poema, que motivou artigo meu aqui no DP em 20/10/2002, tem este desfecho: “Eu ouço as vozes/ eu vejo as cores/ eu sinto os passos/ desse Brasil que vem aí.” É meu sentimento. Minha esperança.

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