EDITORIAL » Quando os marqueteiros delatam seus clientes

Publicação: 13/05/2017 03:00

Alguém já disse, com muita propriedade e bom humor, que nos últimos tempos o brasileiro pode sofrer de tudo, menos de tédio. Acabou o depoimento de Lula a Sérgio Moro e já está o país, agora, com as atenções voltadas para outro fato relevante — a delação do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura.

João Santana é um daqueles “magos de campanha”, o profissional que por meio de frases, imagens e motes, consegue fazer crescer o apoio popular aos seus clientes. Foi de sua lavra o slogan “Deixa o homem trabalhar”, bem-sucedido na tarefa de reerguer a popularidade do então presidente Lula na época do Mensalão. Trabalhou também nas campanhas de Dilma Rousseff, com igual sucesso.

Por ter privado da intimidade do poder de ambos, a delação do casal é impactante — se os detalhes que eles revelaram se comprovarem verdadeiros,  serão devastadores para Lula e Dilma. Mônica diz, por exemplo, que criou no computador da própria presidente uma conta de e-mail fake (nome da pessoas e dados fictícios), cuja senha seria compartilhada por ambas e pelo ex-assessor da presidente Giles Azevedo. Por esse e-mail, a presidente os alertaria se a Lava-Jato ameaçasse chegar até o casal.  A assessoria de Dilma encaminhou nota à imprensa afirmando que João Santana e Mônica Moura “prestaram falso testemunho e faltaram com a verdade em seus depoimentos, provavelmente pressionados pelas ameaças dos investigadores”.  A bem da verdade, convém informar que o casal estava preso e fechou acordo de delação premiada para sair da cadeia.

Na raiz da prisão de Santana e Mônica está a acusação de terem recebido via caixa 2 o pagamento pelo trabalho nas campanhas.  Em vídeo divulgado nesta sexta-feira pelo Supremo Tribunal Federal, com o depoimento dos marqueteiros, Santana aparece dizendo que todas as campanhas eleitorais no Brasil usam desse expediente. “As campanhas no Brasil são fortemente financiadas dessa forma: caixa 2. Não há uma só campanha no Brasil, vamos dizer, 99,9%, e não há um único marqueteiro, eu imagino, que não tenha sido obrigado ou que não recebeu. Não que isso nos isente”, afirma ele.

Os fatos delatados estão sob investigação, e os denunciados negam envolvimento. Mas bom será para o Brasil e para nossa política se ao final desse processo forem extintas as condições que, na teoria ou na prática, tornam possível a ocorrência dos atos denunciados.

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