Moro e Lula, o encontro

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 12/05/2017 03:00

As estratégias estavam, desde muito, já definidas. Lula não quer ser julgado. Simples assim. Ao menos, antes das próximas eleições. É réu em 5 ações penais. Acusado pelos crimes de lavagem de dinheiro (211 vezes), corrupção (17 vezes), tráfico de influência (4 vezes) e obstrução à Justiça (1 vez). Um amigo alvirrubro, ao saber que são só 5 ações, gritou cheio de orgulho Hexa é luxo!

Lula sabe que, se for condenado agora, corre o risco de ter a sentença confirmada pelo TRT da 4ª Região. Na Lava-Jato isso demora, em média, 13 meses. Mas pode ser menos. E ficaria inelegível, pela Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010). Caso consiga retardar os processos, poderia ser candidato no próximo ano. Se tiver sucesso, como acredita, os processos iriam para o Supremo. Onde a chance de prescrição é bem maior. Faz o possível, para que passe o tempo ligeiro. Usa todos os recursos. E todas as chicanas.

No processo de agora, tinha direito a 16 testemunhas – 8 para cada crime pelo qual é acusado. Indicou 87. Moro poderia recusar. Mas aceitou. Não quer se diga que dificultou a defesa do ex-presidente. A expectativa dos advogados era arrastar o processo por meses. Ou anos. Deu errado. Moro já decidiu ouvir 15 delas por dia. Vai ser necessário só uma semana. Não deu certo. Fazer o que?

Lula se diz, agora, vítima de um julgamento político. Mesmo sendo acusado só por delitos de patrimônio. Desses que enchem nossas delegacias, todos os dias, com meliantes de todos os tipos. E já se lançou candidato a presidente. Nunca se viu isso. Faltando quase 2 anos. Algo sem sintonia com o tempo eleitoral. Como se não tivesse outra opção. O que faz lembrar mestre Jobim – É pau, é pedra, é o fim de caminho.

Moro, por seu turno, sabe que a Lava-Jato tem prazo para acabar. Conhece o precedente da Mani Polite (Mãos Limpas), na Itália. Em que, depois de 5 anos, ninguém mais queria saber da operação. E trabalha para que os processos estejam encerrados, todos, até o próximo ano. Uma análise isenta mostra que tem se comportado bem. Até agora. O ministro Carlos Ayres Brito pediu a gente sua, no Supremo, para conferir o percentual de suas decisões que foram mantidas – no TRF-4, no STJ e no Supremo. Deu 94% (jornais chegaram, mais tarde, a 96%). E constatou não haver um único juiz, no Brasil, com estatísticas de êxito sequer parecidas. Para desespero de Lula.

O depoimento dessa quarta-feira foi civilizado. Sem aumentos no tom da voz. Moro o chamou, sempre, de senhor ex-presidente. E, Lula, de dr. Moro. As perguntas, foram, todas, feitas a partir dos autos. As respostas, àquelas sugeridas por seus advogados. Não sei. Foi dona Marisa. Tudo era com dona Marisa. Nada a reclamar. Que acusados, em processo assim, têm direito de ficar em silêncio. Ou mentir.

Agora será só esperar o julgamento do dr. Moro. Se for considerado inocente, menos um processo para se preocupar. Se culpado, e a sentença for mantida pelo TRF-4, ficará inelegível. Nesse caso, adeus Lula. Teremos caras novas, no próximo ano. Sem rabos presos com a Lava-Jato. Lembro Fernando Pessoa quando escreveu (Últimas Palavras), profeticamente, O amanhã pode ser apenas noite/ Ou pode ser uma aurora. Quem viver verá.

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