EDITORIAL » O interminável confronto de brasileiros contra brasileiros

Publicação: 11/05/2017 03:00

Em meio a uma crise que parece ter vida própria e que muitas vezes provoca a impressão de que não há ninguém controlando o leme dos destinos do país, o presidente Michel Temer fez ontem uma convocatória que, infelizmente, temos todos os motivos para julgar que não será atendida: pediu a “pacificação” entre os brasileiros. A ruptura que vemos agora na sociedade brasileira teve seus primeiros movimentos nas Jornadas de junho de 2013, que levaram milhões de pessoas às ruas; cresceu nas eleições presidenciais de 2014, agudizou-se em 2015, no primeiro ano do segundo mandato da presidente reeleita Dilma Rousseff, e talvez tenha se consolidado (não para sempre, mas em relação aos próximos anos) com o impeachment.

“O país não pode ficar nesse embate de brasileiro contra brasileiro”, disse Temer. “É preciso eliminar uma certa raivosidade que muitas vezes permeia a consciência nacional. Precisamos ter paz e tranquilidade e saber que nada vai impedir que o Brasil continue a trabalhar”. Não há como ser contra o chamamento feito pelo presidente; seria ótimo se o conjunto da nação brasileira o atendesse. Não há, porém, nenhum indicativo de que isso seja possível, em um futuro próximo. A sua antecessora e os seguidores dela também fizeram, antes, a mesma convocação, sem sucesso.

Não é possível que essa “pacificação” aconteça porque a sociedade está dividida em campos mais fortes do que o da simples retórica — e, como se não bastasse, tendo como pano de fundo 1) uma crise econômica responsável por mais de 14 milhões de desempregados, pela falência de milhares de empreendimentos e pela incerteza instalada nos lares dos brasileiros, e 2) as ações e consequências da Operação Lava-Jato.

Eleições presidenciais às vezes são ponto de partida rumo à pacificação de um país. Os candidatos disputam entre si, os eleitores se dividem — mas, depois, o eleito assume e torna-se o presidente de todos os brasileiros, não só dos seus eleitores. Isso numa situação de normalidade. Não sabemos se este será o cenário para 2018. Vistos sob a perspectiva do momento atual, os indicativos são de que o cenário será outro. Mas até lá muita coisa pode acontecer — podemos, por exemplo, amadurecer a ponto de entender que o incessante confronto radicalizado não dá a vitória a ninguém e só faz espalhar derrotados pelo país inteiro.

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