Filhos? Pra que tê-los? Mas se não os temos...

Márcia Mª G. Alcoforado de Moraes
Pós-Doutora pela University of Illinois at Urbana-Champaign UIUC/ EUA, Doutora em Economia pela UFPE e professora associado da Universidade Federal de Pernambuco
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Publicação: 10/05/2017 09:00

Celebramos recentemente o aniversário de nossa filha mais velha e me peguei refletindo sobre esses 25 anos de maternidade. Não tenho dúvidas hoje de tratar-se de uma das mais intensas experiências humanas, essa de ser mãe. Nunca me esqueço da sensação de assombro e êxtase da primeira vez que tive cada um dos meus filhos nos braços após o nascimento. Diante de tamanha fragilidade, nasce uma modalidade de amor a que nada se compara. Passa-se então a viver uma vida regida pelos instintos mais básicos de um ser humano e absolutamente tudo muda, especialmente o centro em torno do qual tínhamos vivido até então: os nossos “gostos”. É o choro de nossos filhos que nos comanda e passa a ditar a rotina diária. Um sorrisinho, mesmo que involuntário, nos preenche e continuamos então prontos a prosseguir numa das jornadas mais hercúleas com que um ser humano se depara. As descobertas da primeira infância são mágicas e nos fazem acreditar num mundo melhor, afinal terá a contribuição deles.. Voltamos então a nossa própria meninice, dando-lhes muitas vezes mimos desejados por nossa criança interior. O dilema do tempo usado na busca por realizar o que somos como pessoas e o que lhes dedicamos nos atormenta e nos enche de culpa. Nossa geração foi a primeira de mães com mais tempo de horas diárias fora de casa e “longe” de seus filhos pequenos. Será que dará certo? Não tínhamos referências. Os resultados na escola, muitos amiguinhos por perto e os sorrisos são bons indicativos. Mesmo que o nosso casamento não esteja bem, a casa pareça um front de guerra e a opção profissional talvez esteja errada, eles estão felizes. É a partir daí, ancorados nesta certeza, que voltamos para consertar o que deixamos a descoberto. De repente, não mais do que de repente, a adolescência deles se instala. São miniadultos, desfilando nossos defeitos sem o menor pudor e qualidades antes não reconhecidas. Fazem coisas que adoraríamos ter feito, mas que jamais ousamos. Diria que é nessa época que tudo que funcionava durante a sua criação (e que até então os manteve vivos), passa a ser inócuo. Precisamos urgentemente nos reinventar e reaprender a ser mães de novo. A mãe que fomos não é mais necessária. As lobas fazem isso. Num determinado momento empurram seus filhos para a luta e rosnam para eles se recuam. Proteção desmedida e presença constante agora envenenam a relação e passam uma mensagem, mesmo que inconsciente, de que não os acreditamos. Mais desafiador do que ser mãe de crianças pequenas, tão frágeis e dependentes, é ser mãe de adolescentes e quasi-adultos. Diria que nesta fase a natureza, mestra inigualável, vira o jogo e nos dá uma oportunidade ímpar de revisitar nossa essência e reaprendê-la com eles. Ser mãe de filhos criados é ser aprendiz na meia-idade e por isso tão difícil. As posições muitas vezes são trocadas, especialmente nos nossos dias, em que a liberdade que lhes demos e com quem eles têm absoluta intimidade, favorece uma relação verdadeira mesmo que muitas vezes conflituosa. Na sua transição para adultos, os filhos nos dão a última chance de finalmente nos conhecer, ao nos reconhecermos através deles. Tendo mais de um, o aprendizado ainda é maior. Enquanto uma me olha de frente e firmemente me chama à responsabilidade pela enorme chaga social que a sua geração legamos, o outro limpidamente me pergunta: pra que Estado? Porque temos que pagar impostos? Serenamente, nos raros momentos em que fala, com uma pose de príncipe que não sabemos de onde tirou, o “do meio” conclui durante uma discussão acalorada que as duas visões estão incompletas. Para ela, sou de direita e, para eles, de esquerda. Atordoada vou recolhendo os pedaços e parafraseando Hemingway me transformando no que sou hoje: os mil cacos que juntei à minha maneira.

Este texto foi escrito na manhã do Dia das Crianças e é dedicado aos meus três filhos: Thaís, André e Diogo. Recife, 12 de outubro de 2016.

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