Entre o pacto e o diálogo

Anco Márcio Tenório Vieira
Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE

Publicação: 09/05/2017 03:00

Seja pela diversidade social, cultural, religiosa, política, econômica e de gênero, seja pelo crescente fluxo migratório entre os povos, o fato é que é da natureza das sociedades modernas ser multicultural. Multiculturalidade essa que nem sempre vem se traduzindo em alteridades que se mostrem abertas ao diálogo, ao contraditório, ao transigir. Pelo contrário. Os sujeitos desse mosaico multicultural se mostram avessos à ideia de diferença, de individualidade, e, cada vez mais, se voltam para as suas particularidades e comunidades de destino: ser negro, mulher, gay, heterossexual, branco, evangélico....

O fato é que pouco importa se vivemos em sociedades multiculturais, se, na verdade, essa realidade não vem se traduzindo em trocas de experiências existenciais e simbólicas entre os diversos grupos sociais, religiosos, culturais e étnicos. O Outro, o diverso, a nossa imagem invertida, o espelho que deforma o nosso narcisismo e nos retira da zona de conforto, vem sendo tomado, de modo recorrente, como uma ameaça. Como todos aqueles que se creem acuados, os particularistas alimentam velhas ideologias reacionárias (muitas delas tão caras ao nazi-fascismo) de que as suas culturas são puras, imaculadas e imemoriais. Esquecem, no entanto, que a cultura, enquanto manifestação humana, é também o espaço da política (logo, do contraditório, do impuro) e ao encerrar em suas formas artísticas os influxos ideológicos do seu tempo, se firma como uma promotora dinâmica da consciência social.

Desse modo, não pode existir diálogos interculturais se cada integrante desse mosaico multicultural evoca para si os discursos particularistas da supremacia racial, social, cultural ou de gênero. O diálogo só se manifesta entre diferentes (e mesmo entre os iguais) quando esses se reconhecem como constituídos e irmanados na mesma matéria e no mesmo sentimento de humanidade. Quando nos fechamos em nossas verdades imaculadas, o que nos sobra, antes de mergulharmos na completa barbárie, é construirmos um pacto de convivência e de não agressão. Esse acordo ético-moral que os particularistas lançam mão como o derradeiro recurso de civilidade — o pacto — é, na verdade, o atestado de falência da multicuturalidade.

Repito: pouco importa vivermos em uma sociedade multicultural se os sujeitos dessa multiculturalidade pouco contribuem para o banquete da antropofagia cultural. Afinal, uma sociedade claudica quando deposita o seu futuro antes em pactos do que em frutíferos e dialéticos diálogos entre tempos, gerações, povos e culturas. Esse interculturalismo, produto do transigir entre diferentes e iguais, é o oxigênio que impede que particularistas étnicos, religiosos e culturais se petrifiquem em suas crenças, verdades e purezas ideológicas.

O fato é que a sociedade moderna encontra-se em uma encruzilhada. De um lado, é narcisisticamente seduzida pelo espelho do particularismo (que replica e uniformiza os seus valores ideológicos em detrimento do eu); de outro, pelo espelho “borrado” que deforma as verdades narcisistas, tira o sujeito da sua zona de conforto ideológico e o obriga a reconhecer que a graça da vida é que cada indivíduo, indiferente das suas particularidades, é dotado de características próprias; e, no caso, não são apenas as suas características genéticas, mas, e principalmente, as que são construídas pela dialética que estabelecemos com o Outro e com os discursos que o constituem.

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