EDITORIAL » Os índios e a política da improvisação

Publicação: 06/05/2017 03:00

A substituição do dirigente de um órgão governamental não é um fato extraordinário. Mas chama a atenção quando 1) o dirigente estava no cargo há poucos meses; 2) quando ninguém lhe comunica do ato e ele fica sabendo de sua exoneração pelo Diário Oficial e 3) quando ele sai dizendo cobras e lagartos do governo que o nomeou. Foi exatamente isso que aconteceu com Antônio Fernandes Toninho Costa, demitido ontem da presidência da Funai (Fundação Nacional do Índio).

“Eu saio porque sou honesto, porque não me curvei e jamais me curvarei para fazer o malfeito”, disse ele, que estava no cargo havia apenas quatro meses.  É óbvio que uma demissão ocorrida após tão pouco tempo de gestão merece a definição de “abrupta”. Mesmo que entre o demitido e o governo houvesse apenas troca de amabilidades formais após o ato, a imagem do dirigente afastado sai chamuscada do episódio.  Pela frase do Toninho Costa, porém, já dá para ver que entre as duas partes não houve permuta de amabilidades, muito pelo contrário.

O ministro da Justiça, Omar Serraglio, ao qual o dirigente estava subordinado, explicou assim a demissão:  “Várias questões não vinham sendo tratadas com a urgência e efetividade que os assuntos da área requeriam, o que corrobora a necessidade de uma melhor gestão”. Em outras palavras: o gestor saiu por incompetência.

Isso numa perspectiva puramente administrativa. Numa administração política, porém, como no fundo são todas aquelas de um governo, há outras perspectivas — uma delas foi levantada pelo próprio demitido, que afirmou ter sido afastado em virtude de pressões feitas pela bancada ruralista à qual o ministro estaria ligado. Além disso, também pela “incompetência do governo, que abandonou a Funai e as causas indígenas”.  Para quem acha que acabou, ainda tem mais. “Incompetência é a desse governo, que quebrou o país, que faz cortes de 44% no orçamento porque não teve competência de arrecadar recursos”, disparou Toninho Costa. “Incompetência é a desse governo, que é incapaz de convocar os 220 concursados. Incompetência é a desse governo, que faz corte de funcionários e servidores da instituição”.

Toninho Costa foi nomeado por indicado do PSC, legenda da base governista. Ele disse que não era filiado, e apenas prestava assessoria técnica ao partido nas comissões do Congresso.  Sua demissão ocorre quatro dias depois de um conflito entre fazendeiros e índios em Viana (MA), que deixou 13 feridos, entre eles um índio que teve as mãos decepadas.  Sua substituta encontra-se de licença médica. A demissão e a forma como se deu, os fatos que a antecederam e o teor da “troca de amabilidades” são, de certa forma, um retrato da crise brasileira e das improvisações que têm sido marca do governo.

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